Coluna Vem K!
Por: Karina Christina Souza
13/10/2026 - 12:45:30

O brasileiro é um povo de fé. Mas será que a fé que a gente carrega no coração também aparece no nosso jeito de viver?

Quem vive na Bahia sabe que a fé faz parte da vida de um jeito muito particular. Ela está naquele pedido antes de pegar a estrada, na oração da mãe quando o filho sai de casa, na promessa feita com o coração apertado e naquele costume tão nosso de dizer: “Se Deus quiser, vai dar tudo certo!”

Eita, como a gente fala de Deus!

A fé está na missa de domingo, no culto, nas procissões pelas ruas, nas celebrações dos terreiros e nas orações silenciosas de quem encontra um tempinho para conversar com o Criador. Está na mulher que acorda cedo, prepara o café e pede força para enfrentar mais um dia. No trabalhador que sai ainda de madrugada para garantir o pão de cada dia. Na família que, mesmo com as contas apertadas, agradece pelo alimento que não faltou à mesa.

Porque o nosso povo conhece bem as durezas da vida. Tem mês em que o dinheiro mal dá para pagar as contas, tem preocupação que tira o sono e tem notícia que deixa o coração da gente apertado. Nessas horas, a fé vira colo, coragem e esperança.

Mas, conversando aqui com vocês, quero trazer uma reflexão: será que a fé que professamos também aparece na maneira como tratamos as pessoas?

Pense na cena: alguém sai da igreja depois de ouvir uma bonita mensagem sobre amor e perdão. No primeiro aborrecimento no trânsito, perde a paciência, solta o verbo e deseja tudo de ruim ao motorista que lhe deu uma fechada.

Oxente! E o perdão ficou lá dentro da igreja?

Ou então aquela pessoa que compartilha mensagens religiosas no WhatsApp, deseja um dia abençoado para todo mundo, mas, dentro de casa, não tem paciência com os pais, responde atravessado aos filhos e trata mal quem está por perto.

E o que dizer de quem pede a Deus prosperidade, mas tenta levar vantagem sobre o cliente? De quem reza pela família, mas não encontra tempo para visitar a mãe idosa? De quem fala tanto de amor ao próximo, mas não consegue sequer cumprimentar um vizinho com quem teve uma desavença?

Calma, minha gente! Não estou aqui para apontar o dedo para ninguém. Até porque, antes de olhar para a vida alheia, cada um de nós precisa dar uma espiadinha na própria consciência.

Quem nunca perdeu a paciência? Quem nunca falou o que não devia? Quem nunca precisou reconhecer um erro e pedir desculpas?

Ter fé não significa ser perfeito. Significa, também, reconhecer que precisamos melhorar, aprender com nossos tropeços e tentar fazer diferente no dia seguinte.

E, quando penso em fé, uma lembrança muito especial me vem ao coração: minha mãe.

Lembro dela com o terço nas mãos, agradecendo a Deus e pedindo sabedoria e paz. Lembro de quanto gostava de ir à missa e de sua devoção a Nossa Senhora das Graças.

Essa imagem ficou guardada em mim. E, quando penso nela, percebo que a fé pode ensinar muito sem precisar de grandes discursos. Está na oração repetida com confiança, no agradecimento feito com sinceridade e na busca por serenidade para enfrentar os desafios da vida.

Minha mãe me faz pensar em tantas mulheres brasileiras que carregam a fé no peito e a expressam nos pequenos gestos. Mulheres que rezam pelos filhos, pedem proteção para a família, agradecem pelas conquistas e encontram na oração forças para atravessar os dias difíceis.

Talvez a gente nem compreenda, em determinada fase da vida, a profundidade desses gestos. Só depois, com o tempo e as experiências, percebe o valor dessas lembranças.

Hoje, ao recordar minha mãe e sua devoção a Nossa Senhora das Graças, penso nas heranças que recebemos de quem amamos. Algumas lições não chegam por meio de conselhos demorados. São aprendidas pelo exemplo, pela constância e por aquelas cenas simples que ficam guardadas no coração.

E essa lembrança também me ensina algo importante: não basta pedir a Deus que nos conceda sabedoria. É preciso procurar agir com sabedoria. Não basta pedir paz. Precisamos aprender a não alimentar conflitos desnecessários. Não basta agradecer pelas bênçãos recebidas. Podemos também nos tornar uma bênção na vida de alguém.

Afinal, a fé aparece nas coisas miúdas do cotidiano.

Está na vizinha que prepara um prato de comida e divide com quem está passando necessidade. No amigo que percebe nossa tristeza e pergunta, de coração: “Ô, meu bem, aconteceu alguma coisa? Quer conversar?”

Está naquele motorista que dá passagem a um pedestre, no comerciante que age com honestidade, no filho que arranja um tempinho para visitar os pais e na pessoa que pede desculpas porque entende que o orgulho não vale mais do que uma relação importante.

São gestos simples, desses que acontecem sem anúncio, sem fotografia e sem curtida nas redes sociais. Mas que podem mudar o dia de alguém.

Também precisamos compreender que a fé não deveria ser motivo de disputa. A Bahia é rica em tradições e manifestações religiosas. Há quem encontre seu caminho na Igreja Católica, nas igrejas evangélicas, nas religiões de matriz africana, no espiritismo e em outras experiências de espiritualidade. Há também quem não professe religião alguma.

Respeitar essa diversidade é reconhecer a dignidade de cada pessoa.

Não combina pedir paz a Deus e espalhar intolerância. Não combina falar de amor e humilhar quem pensa diferente. A fé não deveria nos afastar uns dos outros, mas nos ajudar a compreender que todo mundo tem suas lutas, seus medos e suas esperanças.

E sabe o que acho interessante? Muitas vezes, a pessoa que mais demonstra bondade não é necessariamente aquela que mais fala de religião. É aquela que aparece quando a gente precisa, que ajuda sem fazer propaganda, que escuta sem julgar e que estende a mão sem perguntar em quem você acredita.

Isso não diminui a importância da oração, da missa, do culto ou das tradições religiosas. Pelo contrário. É um convite para que aquilo em que acreditamos também se revele na maneira como vivemos.

Porque não adianta pedir uma vida melhor e continuar alimentando rancor. Não adianta pedir proteção para os filhos e esquecer de ensinar respeito. Não adianta pedir prosperidade e passar por cima dos outros para conseguir o que queremos.

A vida já tem suas durezas. A gente sabe muito bem disso. Por isso, não custa tentar torná-la um pouco mais leve para quem caminha ao nosso lado.

E você, que me acompanha nestas conversas cotidianas, já parou para pensar em como vive a sua fé?

Ela aparece na maneira como você trata quem não pode lhe oferecer nada em troca? Na paciência com os mais velhos? Na honestidade quando ninguém está olhando? Na capacidade de reconhecer os próprios erros? No respeito por quem pensa diferente?

Talvez não precisemos começar com grandes promessas. Podemos começar amanhã, dentro de casa, no trabalho, na fila do banco, no trânsito ou naquela conversa difícil que estamos adiando.

Podemos começar ouvindo mais, julgando menos, respeitando as diferenças e oferecendo ajuda sem esperar reconhecimento.

Eu acredito que a fé tem um valor imenso na vida de muita gente. Ela consola, fortalece, renova a esperança e nos ajuda a seguir quando o caminho parece difícil. Mas acredito também que ela ganha um significado ainda mais bonito quando sai das palavras e chega às atitudes.

Que nunca nos falte fé para rezar, humildade para agradecer e sabedoria para fazer escolhas melhores. Que a gente conserve as boas lembranças de quem nos ensinou a acreditar e tenha coragem para transformar esses ensinamentos em gestos concretos de amor.

E, se me permitem terminar nossa conversa a de hoje com uma pergunta, aqui vai:

De que adianta pedir tantas bênçãos ao céu se a gente não consegue oferecer um pouquinho de bondade a quem está aqui na Terra?

 

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Por: Karina Christina Souza
05/10/2026 - 10:37:54

Oxente… a gente sabe tanto da vida dos outros. Mas será que sabe da própria vida?

A gente percebe quando a amiga está triste. Sabe quando alguém não está legal só pelo jeito de falar. Olha para um filho e já pergunta:

— O que foi? Você está diferente.

Mas quando o assunto somos nós, parece que a conversa muda de figura.

A gente vai levando.

Tem trabalho, casa, família, boleto, mensagem para responder, problema para resolver, compromisso para cumprir.

E toca o barco.

Só que tem hora que o corpo reclama.

A paciência vai embora.

Qualquer coisinha tira a gente do sério.

O sono fica ruim.

A cabeça não para.

E aquela velha frase aparece:

— É só cansaço.

Será mesmo?

Às vezes, não é só cansaço.

É excesso de coisa nas costas. É preocupação guardada. É vontade de dizer “não” e continuar dizendo “sim”. É uma conversa que estamos evitando. É uma vida que, de tanto cuidar de todo mundo, deixou a gente por último.

É aí que entra a tal da autopercepção.

Em bom português: é prestar atenção na gente.

É perceber o que está sentindo, entender por que está reagindo daquele jeito, reconhecer quando chegou no limite e ter coragem de admitir que alguma coisa não está bem.

E isso começa nas coisas mais simples.

Sabe aquele dia em que você chega em casa cansada, encontra os pratos na pia e fica chateada?

Aí começa:

— Ninguém me ajuda nessa casa!

Talvez a raiva nem seja dos pratos.

Talvez você esteja cansada de carregar tudo sozinha.

Os pratos só foram a gota d'água.

Se a gente percebe isso, em vez de transformar a cozinha num campo de batalha, pode dizer:

— Gente, eu estou cansada. Preciso de ajuda.

Olha aí.

Uma pequena percepção pode evitar uma grande confusão.

Tem também aquele famoso “sim” que sai da boca enquanto o coração está gritando “não”.

A colega pede um favor no trabalho.

Você já está atolada.

Mas responde:

— Pode deixar que eu faço.

Em casa, mais uma pessoa pede alguma coisa.

Você aceita.

Uma amiga chama para sair.

Você queria mesmo era ficar quietinha no seu canto, mas vai para não fazer desfeita.

Depois está cansada e reclamando:

— Meu Deus, ninguém respeita meu espaço!

Mas será que você ensinou as pessoas onde fica esse espaço?

Às vezes, é preciso aprender a dizer:

“Hoje não posso.”

“Isso eu não consigo assumir.”

“Preciso descansar.”

“Não quero.”

E pronto.

Não precisa fazer discurso, pedir desculpa por existir nem escrever uma tese para justificar um limite.

Dizer não também é se respeitar.

E tem outra coisa que merece nossa atenção: o celular.

A gente pega o telefone para responder uma mensagem.

Quando vê, está há quarenta minutos vendo a vida alheia.

Fulana viajou.

Ciclano comprou carro.

Alguém casou.

Outro está numa praia maravilhosa.

Todo mundo parece feliz.

E você começa a pensar:

— Minha vida está tão parada…

Calma lá!

Você está comparando sua vida real com o recorte bonito que alguém decidiu colocar na internet.

Aí vale perguntar:

“Eu estou admirando a vida dessa pessoa ou estou usando a vida dela para diminuir a minha?”

É uma pergunta muito boa.

Porque, às vezes, o problema nem é a postagem.

É o que aquela postagem mexeu dentro da gente.

E não é só na internet.

Nas relações também.

Alguém fala uma coisa e a gente responde atravessado.

Depois, com a cabeça mais fria, pensa:

“Vixe… eu exagerei.”

Por quê?

Talvez aquela fala tenha mexido numa ferida antiga.

Talvez a gente já estivesse acumulando coisa demais.

Talvez tenha sido o famoso copo cheio.

Autopercepção é justamente perceber essas coisas.

Em vez de dizer:

“Eu sou assim mesmo.”

perguntar:

“Por que eu reajo desse jeito?”

Uma frase fecha a porta.

A outra abre.

E tem mais: autopercepção não serve só para descobrir o que está errado.

Serve também para perceber o que está dando certo.

Aquele café tomado com calma.

Uma conversa boa com amigos.

Uma risada daquelas que fazem a barriga doer.

Um abraço apertado.

Uma tarde sem pressa.

Uma conquista que ninguém viu o quanto custou.

A gente precisa aprender a perceber a felicidade também.

Porque, às vezes, fica procurando tanto o que falta que não agradece pelo que já tem.

E não precisa fazer nada complicado.

Antes de dormir, pode perguntar:

O que me fez bem hoje?

O que me tirou do sério?

Onde eu passei do meu limite?

O que estou precisando?

Pronto.

Cinco minutinhos de conversa com a gente mesmo.

Sem julgamento.

Sem drama.

Só sinceridade.

Porque tem coisa que a gente só consegue mudar depois que consegue enxergar.

E enxergar a si mesmo nem sempre é confortável.

A gente descobre que mudou.

Que aquele sonho antigo já não faz tanto sentido.

Que determinada amizade ficou pelo caminho.

Que certo ambiente não faz mais bem.

Que algumas coisas que antes eram prioridade hoje já não cabem na nossa vida.

E tudo bem.

A gente não é árvore para ficar plantado no mesmo lugar a vida inteira.

A vida muda.

A gente muda.

E reconhecer isso também é maturidade.

Talvez, de vez em quando, seja preciso parar e perguntar:

“Quem é essa pessoa que estou me tornando?”

Não quem os outros querem que você seja.

Não quem você foi.

Não quem aparece no Instagram.

Quem você está escolhendo ser?

No fim das contas, autopercepção é isso:

É parar de viver no automático.

É prestar atenção nos sinais.

É saber quando é hora de continuar, quando é hora de mudar e quando é hora de simplesmente parar um pouquinho.

É olhar para dentro sem se maltratar.

É reconhecer:

“Hoje eu não estou bem.”

E também conseguir dizer:

“Hoje eu estou feliz.”

Porque cuidar da própria vida não é só pagar conta, trabalhar, cuidar da casa, resolver problema e dar conta de todo mundo.

Cuidar da própria vida também é não se deixar para depois.

Então, minha gente, fica a pergunta:

Você está vivendo a sua vida ou apenas dando conta dela?

Porque uma coisa é passar pelos dias.

Outra, bem diferente, é estar presente neles.

E talvez seja justamente aí que comece uma vida mais consciente, mais leve e mais nossa.

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Por: Karina Christina Souza
25/09/2026 - 18:34:57

Quando foi que começamos a viver pensando na fotografia que a vida vai render?

Essa pergunta me acompanha cada vez que vejo alguém interromper uma experiência para fotografá-la. Antes de sentir o momento, é preciso registrá-lo. Antes de saborear, é preciso postar. Antes de viver, é preciso enquadrar.

Vivemos a era do “instagramável”.

A comida precisa estar bonita.

A mesa precisa estar posta.

A casa precisa parecer impecável.

A viagem precisa ter paisagem.

O look precisa render foto.

O relacionamento precisa parecer feliz.

E nós... precisamos parecer bem.

Mas será que estamos realmente bem?

As redes sociais trouxeram possibilidades extraordinárias de comunicação, trabalho, informação e conexão. Elas aproximam pessoas, ajudam profissionais a construir suas marcas e permitem que histórias sejam compartilhadas em segundos.

Mas existe um outro lado dessa vitrine.

O problema não está em publicar uma fotografia bonita.

Está quando começamos a acreditar que a vida precisa ser bonita o tempo inteiro para ter valor.

E não precisa.

A vida real não tem filtro.

Ela tem olheiras.

Tem boleto.

Tem cabelo desarrumado.

Tem ansiedade antes de uma decisão importante.

Tem saudade.

Tem medo.

Tem dias em que acordamos maravilhosos e outros em que simplesmente gostaríamos de não levantar da cama.

Tem relações que terminam.

Projetos que não dão certo.

Sonhos que precisam ser adiados.

E tem recomeços que acontecem longe das câmeras.

O problema é que, enquanto mostramos diariamente os nossos melhores momentos, podemos olhar para a vida editada dos outros e compará-la com a nossa vida sem edição.

E essa comparação é cruel.

Porque eu conheço os bastidores da minha vida.

Mas conheço apenas o palco da vida do outro.

Eu sei das minhas inseguranças, dos meus fracassos, das minhas contas, das minhas noites mal dormidas e das minhas dúvidas.

Do outro, muitas vezes, vejo apenas quinze segundos de uma viagem, um sorriso, uma conquista, um corpo produzido, uma casa organizada ou um relacionamento aparentemente perfeito.

E então penso:

“Por que a minha vida não é assim?”

Talvez porque nenhuma vida seja exatamente assim.

Até porque uma fotografia pode congelar um instante bonito, mas não consegue contar a história inteira.

Uma mulher pode estar lindíssima em uma fotografia e estar vivendo um dos períodos mais difíceis da sua vida.

Um casal pode publicar uma declaração apaixonada e estar atravessando uma crise.

Uma pessoa pode viajar para lugares incríveis e continuar profundamente infeliz.

Outra pode estar sentada sozinha na cozinha, tomando café em uma xícara simples, e estar vivendo uma paz que nenhuma fotografia conseguiria explicar.

Por isso, talvez precisemos falar menos sobre ser instagramável e mais sobre ser autêntico.

Autenticidade não significa expor tudo.

Aliás, existe uma diferença enorme entre autenticidade e exposição.

Nem tudo precisa ser contado.

Nem todo sofrimento precisa virar postagem.

Nem toda conquista precisa de plateia.

Nem toda felicidade precisa de comprovação.

Existem coisas que ficam mais bonitas quando permanecem apenas nossas.

Uma conversa que ninguém fotografou.

Um abraço que ninguém viu.

Uma oração feita em silêncio.

Uma lágrima derramada sem story.

Um café tomado sem pressa.

Uma gargalhada que não foi gravada.

Uma conquista comemorada apenas entre nós e aqueles que realmente importam.

Talvez uma das maiores formas de liberdade hoje seja conseguir dizer:

“Isso aconteceu comigo e eu não preciso mostrar.”

Porque quando precisamos registrar tudo, corremos o risco de transformar a própria vida em espetáculo.

E uma vida vivida como espetáculo pode ser muito cansativa.

Afinal, quem está sempre preocupado em parecer bem pode esquecer de perguntar a si mesmo:

“Mas eu estou bem?”

Quem está sempre preocupado em parecer feliz pode esquecer de perguntar:

“O que realmente me faz feliz?”

Quem está sempre tentando impressionar pode esquecer:

“Eu gosto da vida que estou construindo ou apenas da imagem que ela transmite?”

Talvez seja hora de devolver à vida aquilo que as redes sociais não conseguem entregar:

profundidade.

Porque a vida não acontece apenas nos momentos dignos de fotografia.

Ela acontece também no silêncio.

No improviso.

Na imperfeição.

Na rotina.

No domingo sem maquiagem.

Na segunda-feira cansativa.

Na casa que não está arrumada.

Na roupa repetida.

No almoço simples.

Na conversa que atravessa a madrugada.

 

Na coragem de começar novamente.

E talvez seja justamente aí que mora a beleza que não precisa de filtro.

Não precisamos deixar de fotografar.

Não precisamos abandonar as redes sociais.

Não precisamos ter vergonha de mostrar nossas conquistas.

Precisamos apenas tomar cuidado para que a vitrine não se transforme em moradia.

Porque o Instagram pode ser uma janela da nossa vida, mas não pode ser a própria vida.

No fim, ninguém deveria passar tanto tempo construindo uma imagem para os outros admirarem a ponto de esquecer de construir uma existência que faça sentido para si.

Então, afinal, precisamos ser instagramáveis?

Não.

Precisamos ser humanos.

Precisamos ser possíveis.

Precisamos ser inteiros.

Precisamos ter coragem para viver momentos que nunca serão publicados.

Porque, quando as luzes se apagam, quando o celular é colocado sobre a mesa e quando não há mais ninguém olhando...

é com a nossa própria vida que precisamos conseguir ficar.

E talvez a fotografia mais bonita seja justamente aquela que não precisa ser postada.

Aquela que fica apenas na memória.

Porque uma vida verdadeira não precisa de curtidas para ser vivida.

 

 

 

 

 

 

 

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Por: Karina Christina Souza
17/09/2026 - 16:10:20

Por que eu aprendi que cuidar de todo mundo é obrigação, mas cuidar de mim precisa de justificativa?

Essa pergunta começou a me incomodar.

Talvez porque, durante muito tempo, principalmente nós, mulheres, fomos educadas para cuidar.

Cuidar dos filhos.

Dos pais.

Da casa.

Do marido.

Do trabalho.

Da família.

Dos amigos.

Cuidar de todo mundo.

E, muitas vezes, fazemos isso tão naturalmente que só percebemos que estamos cansadas quando o corpo começa a cobrar a conta.

Mas afinal: quando foi que cuidar de nós mesmas passou a ser chamado de autocuidado?

A expressão não nasceu com as redes sociais, com os vídeos de skincare, com os aplicativos de meditação ou com aquela ideia moderna de “tirar um tempo para mim”.

O conceito é bem mais antigo.

Na década de 1950, a enfermeira e pesquisadora americana Dorothea Orem começou a desenvolver uma teoria sobre o autocuidado dentro da enfermagem. Para Orem, as pessoas possuem capacidade e responsabilidade de realizar ações que mantenham sua vida, saúde e bem-estar. Quando essa capacidade não é suficiente, entra o cuidado profissional.

Décadas depois, o conceito ganhou outras dimensões.

O autocuidado deixou de ser compreendido apenas como uma questão individual de higiene ou saúde física e passou a envolver também aspectos emocionais, psicológicos, sociais e relacionais.

A própria Organização Mundial da Saúde utiliza hoje uma definição bastante ampla: autocuidado envolve a capacidade de indivíduos, famílias e comunidades de promover e manter a saúde, prevenir doenças e lidar com problemas de saúde, com ou sem o apoio de profissionais.

Ou seja: autocuidado nunca foi simplesmente comprar um creme, fazer as unhas ou passar um fim de semana em um hotel.

Isso pode fazer parte.

Mas é muito maior.

Autocuidado é uma forma de participação ativa na própria vida.

E a ciência começou a mostrar por que isso importa.

Pesquisas em psicologia, medicina comportamental e saúde pública vêm relacionando hábitos de autocuidado e estilos de vida saudáveis a diferentes aspectos do bem-estar, incluindo saúde mental, qualidade do sono, controle do estresse, atividade física, alimentação adequada e prevenção de doenças.

Não significa que uma caminhada, uma boa noite de sono ou uma conversa com alguém de confiança vá resolver todos os problemas da vida.

Não vai.

E é importante dizer isso.

Autocuidado não substitui tratamento médico, psicológico ou outras formas de cuidado profissional quando elas são necessárias.

Mas existe algo poderoso em perceber que não precisamos esperar adoecer para começar a cuidar de nós.

Talvez seja justamente aí que esteja a grande mudança de mentalidade.

Durante muito tempo, aprendemos a procurar ajuda somente quando o problema já estava instalado.

O autocuidado propõe outra lógica:

E se eu cuidar antes de chegar ao limite?

E isso vale para o corpo.

Mas também vale para a mente.

Para os relacionamentos.

Para o trabalho.

Para o dinheiro.

Para o descanso.

Para a nossa capacidade de dizer “não”.

Porque existe um tipo de exaustão que não aparece nos exames.

É aquela sensação de estar disponível para todo mundo e ausente de si mesma.

É sorrir quando queria chorar.

É dizer “está tudo bem” quando não está.

É aceitar situações que machucam para não decepcionar alguém.

É trabalhar até a exaustão porque parece que descansar é perder tempo.

É cuidar de todos e nunca perguntar:

“E eu? Como estou?”

Talvez esse seja o primeiro exercício de autocuidado.

Perguntar.

E responder com honestidade.

E COMO SE AUTOCUIDAR NO DIA A DIA?

A boa notícia é que autocuidado não precisa ser caro.

Nem sofisticado.

Nem instagramável.

Às vezes, ele começa em coisas absolutamente simples.

Dormir melhor.

O sono não é luxo. É uma necessidade biológica. Organizar horários, reduzir estímulos antes de dormir e respeitar o próprio descanso pode ser uma forma concreta de cuidar de si.

Movimentar o corpo.

Não precisa começar com uma academia cinco vezes por semana.

Uma caminhada.

Uma dança.

Subir escadas.

Alongar-se.

Encontrar uma atividade possível e sustentável.

O corpo gosta de movimento.

Alimentar-se melhor.

Não como punição.

Não porque alguém disse que você precisa ter determinado corpo.

Mas porque alimentação também é uma forma de respeito ao organismo.

Cuidar da saúde.

Fazer consultas.

Realizar exames quando indicados.

Tomar medicamentos corretamente quando prescritos.

Não ignorar sintomas.

Prevenir também é autocuidado.

Cuidar da saúde emocional.

Conversar.

Escrever.

Fazer terapia quando possível e necessária.

Reconhecer sentimentos.

Permitir-se pedir ajuda.

Nem toda batalha precisa ser enfrentada sozinha.

Estabelecer limites.

Essa talvez seja uma das formas mais difíceis de autocuidado.

Dizer:

“Hoje não posso.”

“Isso não me faz bem.”

“Não concordo.”

“Preciso de um tempo.”

“Não aceito ser tratada dessa maneira.”

Limite não é falta de amor.

Às vezes, limite é justamente o que impede o amor de virar sofrimento.

Cuidar das relações.

Autocuidado também é perceber quem nos faz bem.

Quem nos respeita.

Quem nos escuta.

Quem celebra nossas conquistas.

E também reconhecer quando uma relação está nos adoecendo.

Cuidar da vida financeira.

Sim, dinheiro também faz parte do autocuidado.

Organizar as contas.

Planejar.

Evitar dívidas desnecessárias.

Construir uma reserva quando possível.

Ter alguma autonomia financeira pode significar liberdade para fazer escolhas importantes.

Cuidar do prazer.

E aqui mora uma coisa que esquecemos.

Nem tudo precisa ser produtividade.

Leia um livro.

Escute música.

Dance.

Viaje.

Tome um café com uma amiga.

Vá ao cinema.

Fique em casa.

Faça algo simplesmente porque aquilo lhe faz bem.

A vida não pode ser uma lista interminável de obrigações.

Precisamos também de momentos que nos lembrem por que vale a pena viver.

E talvez exista ainda um autocuidado que seja o mais difícil de todos:

parar de se cobrar o tempo inteiro.

Nós não precisamos ser excelentes todos os dias.

Não precisamos dar conta de tudo.

Não precisamos estar disponíveis o tempo inteiro.

Não precisamos justificar cada escolha.

Não precisamos provar nosso valor através do quanto conseguimos suportar.

Porque suportar muito não deveria ser a nossa principal medida de força.

Às vezes, força é justamente reconhecer:

“Eu não estou bem. Preciso parar. Preciso de ajuda. Preciso cuidar de mim.”

E isso não é fraqueza.

É consciência.

É maturidade.

É responsabilidade.

Autocuidado não é colocar o mundo inteiro em segundo plano.

É colocar-se também na própria lista de prioridades.

Porque existe uma diferença enorme entre egoísmo e autocuidado.

Egoísmo é pensar somente em si, desconsiderando o outro.

Autocuidado é não se abandonar enquanto cuida dos outros.

E talvez nós, mulheres, precisemos conversar mais sobre isso.

Porque fomos ensinadas a cuidar.

Mas precisamos aprender que cuidar de si também é uma responsabilidade.

Não espere o corpo gritar.

Não espere o coração quebrar.

Não espere o esgotamento chegar.

Não espere perder alguém para perceber que você também precisava estar presente na própria vida.

Comece pequeno.

Hoje.

Beba água.

Respire.

Descanse.

Caminhe.

Diga não.

Marque aquela consulta.

Faça aquela ligação.

Afaste-se do que lhe faz mal.

Procure ajuda.

Dê risada.

Dance.

Ore.

Leia.

Abrace alguém.

Abrace a si mesma.

Porque autocuidado não é uma recompensa para quando terminarmos todas as nossas obrigações.

Autocuidado é parte da própria vida.

E talvez a pergunta que devêssemos fazer não seja:

“Será que estou sendo egoísta ao cuidar de mim?”

Mas:

“Por que eu aprendi que cuidar de todo mundo é obrigação, mas cuidar de mim precisa de justificativa?”

Essa pergunta incomoda.

E talvez deva incomodar.

Porque chega um momento em que precisamos compreender:

nós também somos alguém de quem precisamos cuidar.

E, se alguém chamar isso de egoísmo, talvez possamos responder com serenidade:

“Não. Eu apenas decidi não me abandonar mais.”

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Por: Karina Christina Souza
09/09/2026 - 17:08:18

Há livros que a gente lê.

E há livros que, depois de lidos, começam a nos ler.

Mulher, Objeto de Cama e Mesa, de Heloneida Studart, é um desses livros.

Publicado em um Brasil em que falar sobre a condição feminina exigia ainda mais coragem do que hoje, a obra coloca diante de nós uma pergunta incômoda: até que ponto a mulher foi — e ainda é — tratada como objeto?

A pergunta atravessa décadas.

E continua atual.

Quando me deparei com o título do livro de Heloneida Studart, uma expressão tão dura me fez pensar em quantas mulheres ainda carregam, silenciosamente, os papéis que a sociedade lhes ensinou.

Cama. Mesa. Casa.

Na cama, a mulher deveria estar disponível.

À mesa, deveria servir.

Na casa, deveria cuidar.

E, muitas vezes, fora dela, deveria permanecer em silêncio.

Heloneida Studart escreveu sobre uma realidade em que a mulher era frequentemente reduzida à condição de esposa, mãe e dona de casa. Uma mulher cujo valor parecia estar diretamente relacionado à sua capacidade de servir, obedecer e cuidar.

Mas o mais inquietante é perceber que algumas dessas estruturas mudaram de aparência, mas não desapareceram completamente.

Hoje, a mulher trabalha.

Estuda.

Empreende.

Ocupa universidades, tribunais, empresas, espaços políticos e lugares de liderança.

Mas quantas ainda chegam em casa depois de um dia inteiro de trabalho e encontram outro expediente esperando por elas?

Quantas continuam responsáveis pela comida, pela limpeza, pelos filhos, pelos pais, pela organização da família e, ainda assim, sentem que estão fazendo apenas “a sua obrigação”?

Quantas foram educadas para acreditar que uma boa mulher é aquela que aguenta?

Aguenta o casamento.

Aguenta o cansaço.

Aguenta o desrespeito.

Aguenta a sobrecarga.

Aguenta a própria infelicidade.

E, se possível, sem reclamar.

É justamente por isso que a leitura de Heloneida Studart continua tão necessária.

Porque o livro nos faz perceber que a objetificação da mulher não acontece apenas quando seu corpo é sexualizado.

Ela também acontece quando sua existência é reduzida à utilidade que tem para os outros.

Quando ela é valorizada apenas porque cozinha.

Porque limpa.

Porque cuida.

Porque satisfaz.

Porque suporta.

Porque está sempre disponível.

Porque nunca diz não.

E isso é profundamente perigoso.

Porque, aos poucos, a mulher pode começar a acreditar que seu valor está justamente naquilo que consegue fazer pelos outros.

Até chegar o dia em que olha para a própria vida e percebe:

cuidou de todo mundo, mas esqueceu de si.

Quantas mulheres conhecemos assim?

Talvez sejamos uma delas.

Talvez tenhamos sido ensinadas a colocar o prato de todos na mesa antes de perguntar se também estamos com fome.

Talvez tenhamos aprendido a esconder nossas lágrimas para não preocupar ninguém.

Talvez tenhamos confundido amor com sacrifício.

E talvez ainda estejamos aprendendo que existe uma diferença enorme entre amar alguém e deixar de existir por alguém.

A mulher não precisa deixar de cuidar para ser livre.

Não precisa deixar de amar para ser independente.

Não precisa abandonar a família para ter identidade.

Ela pode escolher cuidar.

Pode escolher ser mãe.

Pode escolher casar.

Pode escolher ficar em casa.

Pode escolher trabalhar.

Pode escolher tudo isso.

Desde que seja escolha.

Porque existe uma diferença enorme entre uma mulher que serve porque ama e uma mulher que serve porque acredita que não tem o direito de fazer outra coisa.

A liberdade está justamente aí.

Na possibilidade de escolher.

E é por isso que precisamos continuar fazendo perguntas.

Perguntas que talvez incomodem.

Quem ensinou que mulher tem obrigação de servir?

Quem decidiu que o corpo feminino pertence ao desejo de alguém?

Quem disse que esposa deve suportar tudo?

Quem determinou que mãe precisa se anular?

Quem convenceu tantas mulheres de que pensar em si mesmas é egoísmo?

A leitura de Heloneida Studart nos convida a olhar para trás.

Mas também nos obriga a olhar para o presente.

Porque não basta celebrar as conquistas femininas se ainda existem mulheres que não conseguem dizer “não”.

Não basta falar em igualdade se dentro de casa a divisão das responsabilidades continua desigual.

Não basta dizer que a mulher é livre se ela ainda sente medo das consequências de exercer essa liberdade.

E não basta ensinar nossas meninas a serem fortes.

Precisamos ensinar nossos meninos a respeitar mulheres fortes.

Mulheres que pensam.

Que trabalham.

Que decidem.

Que discordam.

Que colocam limites.

Que dizem não.

Que vão embora.

Que recomeçam.

Que não aceitam mais qualquer coisa em nome de um amor que deveria acolher, e não aprisionar.

Talvez a grande transformação esteja justamente em deixar de enxergar a mulher como alguém que existe para alguém.

A mulher não existe para o marido.

Não existe para os filhos.

Não existe para a família.

Não existe para satisfazer expectativas sociais.

Ela existe por si mesma.

E isso não diminui sua capacidade de amar.

Ao contrário.

Uma mulher que se reconhece como pessoa inteira pode amar sem se abandonar.

Pode cuidar sem se anular.

Pode entregar sem desaparecer.

Pode dividir a vida sem entregar a própria identidade.

Por isso, depois de ler Heloneida Studart, talvez seja impossível olhar para essa expressão — “mulher, objeto de cama e mesa” — sem perceber a violência histórica escondida nessas palavras.

Mas talvez seja justamente essa a força de um livro que atravessa o tempo:

ele não nos deixa confortáveis.

Ele nos faz pensar.

E talvez ainda precisemos pensar muito.

Porque a pergunta continua diante de nós:

Quantas mulheres ainda estão sendo tratadas como objetos, mesmo quando acreditamos que já vivemos em uma sociedade moderna?

Quantas estão à mesa, mas não participam das decisões?

Quantas estão na cama, mas não têm liberdade sobre o próprio corpo?

Quantas estão dentro de uma casa, mas não se sentem livres?

Quantas sorriem durante o dia e choram escondidas à noite?

Quantas cuidam de todos e não têm ninguém que cuide delas?

É por essas mulheres que precisamos continuar falando.

É por nossas meninas que precisamos continuar questionando.

E é por nós mesmas que precisamos aprender a reconhecer a nossa própria voz.

Porque talvez a verdadeira liberdade feminina não esteja em abandonar a cama, a mesa ou a casa.

Talvez esteja em não permitir que nenhum desses lugares determine quem somos.

A mulher pode estar na cozinha.

Pode estar à mesa.

Pode estar na cama.

Pode estar onde quiser.

Mas jamais deve ser reduzida ao lugar onde está.

Heloneida Studart nos deixou uma pergunta.

Talvez agora seja a nossa vez de respondê-la.

E a resposta precisa ser muito mais do que um discurso:

Mulher não é objeto.

Não é propriedade.

Não é função.

Não é obrigação.

Não é silêncio.

Mulher é sujeito.

Sujeito da própria história.

Dona da própria voz.

Responsável pelas próprias escolhas.

E, acima de tudo, dona de si.

Porque depois de tantos séculos ensinando mulheres a pertencerem a alguém, talvez esteja na hora de ensiná-las — e de nos ensinarmos — uma coisa muito mais poderosa:

mulher não nasceu para pertencer.

Mulher nasceu para existir.

E existir inteira é, talvez, a forma mais bonita e mais corajosa de liberdade.

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Por: Karina Christina Souza
01/09/2026 - 21:37:20

Quantas vezes você respondeu “está tudo bem”, quando, na verdade, não estava? Quantas vezes ficou magoado com alguém e preferiu guardar o que sentia, esperando que o outro percebesse? Ou chegou em casa depois de um dia difícil e, ao ouvir “o que aconteceu?”, respondeu apenas: “Nada, estou cansado”?

Temos o hábito de acreditar que ficar calado evita conflitos. Nem sempre. Muitas vezes, apenas adiamos a oportunidade de esclarecer um mal-entendido, fortalecer vínculos ou impedir que uma pequena frustração se transforme em ressentimento.

Uma brincadeira feita por um amigo pode nos incomodar. Uma atitude do companheiro pode nos ferir. Um colega de trabalho pode levar o crédito por algo que fizemos. Um filho pode se afastar e nos deixar sem saber o motivo. Em vez de perguntar ou explicar o que nos desagradou, pensamos: “Não vale a pena tocar nesse assunto”.

O problema é que aquilo que parece pequeno hoje pode ganhar outra dimensão quando fica guardado. A insatisfação se acumula, a irritação aumenta e, quando finalmente surge uma discussão, já não estamos tratando apenas do episódio recente, mas de tudo aquilo que permaneceu pendente.

Quantos relacionamentos se desgastam dessa maneira? Uma amizade termina porque alguém interpreta a falta de contato como desinteresse. Um casal se distancia porque um dos dois espera que o outro perceba sua sobrecarga. Irmãos deixam de se procurar depois de uma discussão e passam anos aguardando uma iniciativa. Em muitos desses casos, um diálogo franco poderia, pelo menos, ter dado aos envolvidos a oportunidade de compreender o que realmente aconteceu.

Afinal, ninguém consegue ler pensamentos. Podemos perceber que alguém está diferente, mais quieto ou reservado, mas não sabemos necessariamente o motivo. Esperar que o outro descubra aquilo que se passa dentro de nós é uma expectativa que dificilmente funciona.

Expressar aquilo que nos incomoda não significa despejar palavras de qualquer maneira. É encontrar uma forma respeitosa e honesta de colocar as questões na mesa antes que elas cresçam e assumam proporções maiores.

Também precisamos escolher com cuidado quem estará do outro lado. Nem todos têm disposição, sensibilidade ou maturidade para acolher determinadas questões. Dividir uma preocupação, uma tristeza ou um conflito com alguém de confiança pode trazer alívio e, muitas vezes, uma nova perspectiva. Quando necessário, procurar orientação profissional também é uma demonstração de responsabilidade e coragem.

Existe ainda outro aspecto importante: saber escutar. Quando alguém nos procura para desabafar, nossa primeira reação costuma ser oferecer uma solução, dar um conselho ou contar uma experiência semelhante. Mas nem sempre é isso que o outro procura. Em determinadas situações, o mais importante é encontrar acolhimento, sem julgamentos ou comparações.

Talvez devêssemos trocar algumas perguntas automáticas por demonstrações genuínas de interesse. Em vez de apenas “Tudo bem?”, perguntar: “Como você está de verdade?” E, principalmente, ter disponibilidade para ouvir a resposta.

Vivemos conectados o tempo inteiro, mas isso não significa que estejamos verdadeiramente próximos. Trocamos mensagens, compartilhamos informações e acompanhamos a rotina uns dos outros pelas redes sociais, enquanto deixamos de colocar em palavras justamente aquilo que mais importa. Há filhos esperando uma ligação dos pais, amigos que sentem falta uns dos outros, casais que dividem a mesma casa sem compartilhar mais seus pensamentos e familiares que carregam antigas mágoas sem nunca encontrarem espaço para resolvê-las.

Talvez algumas dessas histórias pudessem ter outro desfecho se houvesse mais disposição para o diálogo.

Dizer “isso me machucou”, “preciso da sua ajuda”, “senti sua falta”, “acho que precisamos esclarecer algumas coisas” ou simplesmente “eu não estou bem” pode ser difícil. Mas também pode ser libertador. Dar nome ao que nos aflige ajuda a organizar os pensamentos e permite que o outro conheça uma realidade que, até então, existia apenas dentro de nós.

É claro que nem todo diálogo produzirá o resultado esperado. Algumas pessoas não estarão dispostas a ouvir, determinados conflitos não terão solução imediata e certos vínculos precisarão chegar ao fim. Ainda assim, colocar as cartas na mesa pode nos oferecer algo que a omissão raramente proporciona: clareza.

Por isso, antes de tirar conclusões, pergunte. Antes de se afastar, tente esclarecer. Se alguém é importante para você, demonstre. Se errou, reconheça. Se está passando por uma fase difícil, procure apoio. E, se existe um assunto que vem sendo adiado há muito tempo, talvez seja hora de encontrar coragem para abordá-lo.

Não precisamos transformar todo diálogo em um grande acontecimento. Às vezes, basta sentar, olhar nos olhos e colocar para fora aquilo que precisa ser compreendido.

Uma troca sincera pode não resolver todas as questões, mas pode evitar muitas delas. Pode desfazer um equívoco, diminuir uma tensão, aliviar uma angústia e, quem sabe, preservar um vínculo que estava prestes a se perder.

No fim, expressar o que pensamos e sentimos não é garantia de que tudo ficará bem. Mas permanecer calado também não é.

Talvez essa seja uma das lições mais simples das relações humanas: quando existe respeito, sinceridade e disposição para escutar, o diálogo continua sendo uma das melhores maneiras de encontrar um caminho.

Falar é, muitas vezes, a melhor solução.

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