Por: Karina Christina Souza
29/06/2026 - 10:45:55

"Nasce o Sol a 2 de Julho, brilha mais que no primeiro..."

Toda vez que ouço esse trecho do Hino da Bahia, sinto um arrepio difícil de explicar. Talvez porque ele fale de liberdade. Talvez porque ele fale de pertencimento. Ou talvez porque, sendo filha do interior baiano, eu saiba que a Bahia não é apenas um lugar onde moro. Ela é uma parte de quem sou.

Quando alguém me pergunta o que é que a Bahia tem, minha vontade é responder com outra pergunta: quanto tempo você tem para ouvir?

Porque a Bahia tem séculos de histórias guardadas em suas igrejas, casarões, praças, terreiros e ruas de pedra. Tem a memória dos povos indígenas que aqui viviam muito antes da chegada dos portugueses. Tem a herança dos povos africanos que, mesmo arrancados de sua terra natal, trouxeram consigo sua cultura, religiosidade, culinária, música e sabedoria, ajudando a construir uma das identidades mais ricas do mundo.

A Bahia foi a primeira capital do Brasil. Foi palco de lutas decisivas para a independência do país. Foi porta de entrada de culturas que ajudaram a formar aquilo que hoje entendemos como brasilidade.

Por isso, falar da Bahia é falar do Brasil.

A Bahia está na língua que falamos, nos ritmos que dançamos, nos sabores que experimentamos, nas manifestações religiosas, na arte, na literatura e na música que atravessam gerações.

E que música!

Quando penso na Bahia, penso em Dorival Caymmi cantando o mar com uma sensibilidade que poucos artistas conseguiram alcançar:

"O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito..."

Caymmi transformou a Bahia em poesia. Mas ele não foi o único. A Bahia deu ao Brasil talentos extraordinários como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Jorge Amado, Castro Alves, entre tantos outros que ajudam a contar a alma brasileira ao mundo.

Mas a Bahia também canta através de seu povo anônimo.

Na voz da marisqueira, do pescador, da rendeira, do sanfoneiro das festas juninas e das senhoras que preservam receitas centenárias.

E que culinária!

O acarajé, o vatapá, o caruru, a moqueca, a cocada, o abará e tantas outras delícias contam histórias de encontros entre povos e culturas. Cada prato carrega séculos de tradição e afeto. Comer aqui na Bahia é experimentar um pedaço da nossa memória coletiva.

A Bahia tem ainda uma religiosidade que impressiona.

Aqui convivem lado a lado igrejas centenárias e terreiros ancestrais. O catolicismo popular, as tradições de matriz africana e tantas outras expressões de fé dialogam e ajudam a construir uma identidade marcada pelo respeito ao sagrado e pela esperança.

Talvez por isso o povo baiano tenha aprendido a agradecer tanto. A pedir bênçãos para a caminhada. A confiar que, mesmo diante das dificuldades, a vida encontra um jeito de florescer.

A Bahia também vibra no esporte.

Nas arquibancadas, multidões se dividem entre o amor pelo Esporte Clube Bahia e pelo Esporte Clube Vitória. Rivalidade que movimenta paixões e ajuda a contar a história cultural do estado.

Mas, para mim, torcedora do Bahia e que vive no interior, a maior riqueza da Bahia não está apenas nos grandes monumentos, nos artistas famosos ou nas paisagens exuberantes.

Está nos detalhes.

Está no cheiro da terra quando a chuva chega depois de meses de seca.

Está no cafezinho oferecido a quem bate à porta.

Está na conversa sem pressa na calçada ao final da tarde.

Está no senhor que conhece a história de cada família da cidade.

Está nas festas juninas iluminando as ruas e reunindo gerações inteiras ao redor de uma fogueira.

Está no sentimento de comunidade que resiste mesmo em tempos de individualismo.

A Bahia tem praias que parecem pinturas, como as da Costa do Descobrimento e da Costa dos Coqueiros. Tem a imponência da Chapada, o encanto do Recôncavo, a força do sertão e a beleza silenciosa do interior. Tem paisagens que mudam, mas nunca deixam de emocionar.

E talvez seja justamente essa diversidade que faça da Bahia algo tão especial.

As cores da bandeira baiana — o vermelho, o branco e o azul — parecem traduzir um pouco dessa história: a coragem, a paz e a esperança de um povo que nunca deixou de acreditar em dias melhores.

Por isso, quando me perguntam o que é que a Bahia tem, eu não penso primeiro nas praias, nem nos monumentos, nem mesmo na sua importância histórica.

Eu penso nas pessoas.

Penso nos rostos, nas histórias, nos afetos e nos encontros que moldaram esta terra.

Porque a Bahia tem cultura. Tem patrimônio. Tem talento. Tem fé. Tem gastronomia.

Tem natureza. Tem história.

Mas o que a Bahia tem de mais bonito é a capacidade de fazer cada um de nós sentir que pertence a algo maior.

E talvez eu nunca consiga responder completamente. Porque a Bahia não é apenas um lugar. A Bahia é uma sensação. É uma memória. É uma forma de olhar para a vida.

Só depois percebi que esses pequenos tesouros não existem em todo lugar.

A Bahia onde vivo não é apenas a dos cartões-postais. É a Bahia das estradas cercadas de verde e poeira, das feiras livres cheias de cores e vozes, das pessoas que ainda perguntam pela família quando nos encontram na rua. É a Bahia onde o tempo, às vezes, parece caminhar um pouco mais devagar, como se nos lembrasse da importância de viver cada momento.

A Bahia nasceu do encontro — nem sempre justo, nem sempre pacífico — entre diferentes povos. E talvez por isso tenha aprendido tão bem a conviver com a diversidade, a acolher diferenças e a transformar adversidades em força.

Quando caminho pelas ruas da minha cidade, penso que carrego dentro de mim um pouco dessa herança. Sou filha de uma terra construída por muitas mãos, muitas histórias e muitos sonhos.

E talvez seja isso que mais me emociona.

Porque ser baiana não é apenas nascer na Bahia. É sentir orgulho de um povo que aprendeu a resistir. É reconhecer a beleza das próprias raízes. É saber que existe uma riqueza imensa nas coisas simples.

Vivemos tempos em que tudo parece urgente. As notícias chegam rápido. As relações se tornam superficiais. As pessoas vivem conectadas ao mundo inteiro, mas, muitas vezes, desconectadas de si mesmas.

Nessas horas, o interior da Bahia me ensina.

Me ensina que vale a pena parar para ouvir uma história contada pelos mais velhos. Que existe sabedoria em quem viveu muito. Que o pôr do sol não precisa de filtros. Que uma mesa compartilhada pode curar tristezas. Que a felicidade, quase sempre, mora nas coisas que o dinheiro não compra.

Talvez seja por isso que eu ame tanto esta terra.

Porque ela me lembra quem eu sou.

Ela me lembra que pertenço a uma história maior do que a minha própria existência. Uma história feita de coragem, fé, trabalho, resistência e afeto.

Por isso, quando alguém me pergunta o que é que a Bahia tem, eu respondo com o coração de quem vive e sente esta terra todos os dias:

A Bahia tem mar, tem sertão, tem cultura, tem fé e tem uma história que ajudou a construir o Brasil.

Mas o que a Bahia tem de mais precioso são as pessoas.

Pessoas que, apesar das dificuldades, continuam encontrando razões para sorrir. Pessoas que sabem acolher. Pessoas que transformam a luta em esperança.

E eu, daqui do interior, olhando o movimento tranquilo da minha cidade, acredito que o maior segredo da Bahia talvez seja este:

a capacidade de nos fazer sentir em casa, mesmo quando o mundo lá fora parece perdido.

E isso, convenhamos, é uma riqueza que não cabe em estatísticas, nem em livros de história.

Só cabe no coração.

COMENTÁRIOS

Nome:

Texto:

Máximo de caracteres permitidos 500/