Coluna Vem K!
Por: Karina Christina Souza
03/08/2026 - 19:13:04

Há pessoas que passam a vida inteira procurando alguém em quem possam confiar plenamente. Buscam um amor que permaneça, amigos leais, uma família que acolha, colegas que não decepcionem. É natural. Somos feitos de encontros, de afetos e da necessidade de pertencimento.

No entanto, existe uma relação que antecede todas as outras e que determinará a qualidade de cada uma delas: a relação que cultivamos conosco.

Aprender a contar consigo mesmo não é um gesto de isolamento nem de autossuficiência. É um ato de maturidade. É descobrir que, antes de esperar que alguém nos salve, nos compreenda ou nos fortaleça, precisamos construir dentro de nós um lugar seguro para onde possamos voltar quando a vida se tornar difícil.

Porque, cedo ou tarde, a vida nos coloca diante de uma verdade incontornável: haverá momentos em que a única pessoa capaz de dar o próximo passo será você.

Não porque o mundo tenha deixado de ser generoso, nem porque as pessoas tenham perdido a capacidade de amar. Mas porque existem dores que ninguém consegue sentir em nosso lugar, escolhas que ninguém pode fazer por nós e batalhas que exigem uma coragem profundamente pessoal.

Contar consigo mesmo não significa fechar as portas para o amor, rejeitar ajuda ou acreditar que não precisamos de ninguém. Ao contrário. Significa desenvolver uma confiança interior que permanece firme mesmo quando os aplausos cessam, quando o telefone não toca, quando as mensagens deixam de chegar ou quando alguém decide partir.

É olhar para o espelho e reconhecer alguém que já falhou, já chorou, já se decepcionou e talvez tenha pensado em desistir, mas que nunca deixou de acreditar que poderia recomeçar.

Há uma força extraordinária em quem aprende a ser o próprio abrigo.

É essa força que nos faz levantar depois de uma perda, reconstruir a vida após um fracasso, acreditar novamente depois de uma traição e encontrar razões para seguir quando tudo parece perdido.

Quem pode contar consigo mesmo descobre que a autoestima não nasce da perfeição, mas da fidelidade que cultivamos conosco. Ela floresce quando cumprimos as promessas que fazemos a nós mesmos, quando respeitamos nossos limites, cuidamos da nossa saúde, defendemos nossos valores e nos recusamos a negociar nossa dignidade para sermos aceitos.

Vivemos em uma época em que muitos medem seu valor pela quantidade de curtidas que recebem, pela aprovação que conquistam ou pela presença constante de alguém ao seu lado. No entanto, a verdadeira segurança não mora no olhar do outro. Ela nasce quando encontramos paz na própria companhia.

Talvez seja essa a maior liberdade que um ser humano possa conquistar: compreender que sua felicidade não depende inteiramente das circunstâncias nem da validação alheia.

O filósofo Sêneca ensinava que nenhuma tempestade é capaz de desorientar quem conhece o próprio destino. Podemos ir além: nenhuma solidão é capaz de destruir quem aprendeu a ser uma boa companhia para si mesmo.

Isso não elimina a importância das pessoas. O amor continua sendo um dos maiores presentes da existência. A amizade continua sendo um porto seguro. A família continua sendo um lugar de pertencimento. Mas todos esses vínculos tornam-se mais saudáveis quando deixam de ser uma necessidade desesperada e passam a ser uma escolha consciente.

Quem conta consigo ama melhor, porque ama por inteiro, e não por carência. Compartilha a vida sem transferir ao outro a responsabilidade de preencher todos os seus vazios.

No fim das contas, a pessoa que mais ouvirá seus pensamentos será você. A que conhecerá seus medos mais profundos, celebrará suas maiores conquistas, testemunhará suas quedas e acompanhará todas as suas transformações será, inevitavelmente, você.

Por isso, cuide dessa companhia.

Converse consigo com mais gentileza. Perdoe seus tropeços sem esquecer os aprendizados. Celebre suas pequenas vitórias. Respeite seus limites. Acredite na pessoa que você está se tornando.

Porque a vida muda. Os cenários mudam. As pessoas mudam. Os planos mudam. E, algumas vezes, até aquilo que parecia eterno segue outro caminho.

Mas, quando aprendemos a contar conosco, descobrimos que carregamos dentro de nós um porto seguro que nenhuma tempestade consegue destruir.

No fim, talvez a maior demonstração de amor-próprio não seja dizer ao mundo o quanto somos fortes, mas sussurrar para nós mesmos, nos dias mais difíceis: "Eu estou aqui. Eu não vou me abandonar."

E quando essa promessa é verdadeira, percebemos que a vida pode até nos tirar muitas coisas, mas nunca conseguirá tirar a esperança de quem fez de si mesmo o seu primeiro e mais fiel companheiro.   

                                                                                   Acredito que esse seja um daqueles aprendizados que só a maturidade oferece: a maior segurança que podemos construir não está no que possuímos nem em quem permanece ao nosso lado, mas na certeza de que, aconteça o que acontecer, teremos coragem suficiente para caminhar com a pessoa que jamais nos deixará: nós mesmos.

 

 

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Por: Karina Christina Souza
27/07/2026 - 10:13:42

Há dias em que a vida nos convida a fechar portas que jamais imaginaríamos deixar para trás. Não porque deixamos de amar, de acreditar ou de sonhar, mas porque permanecer já não nos permite crescer.

Recomeçar nunca foi sinônimo de fraqueza. Pelo contrário. É um dos maiores atos de coragem que alguém pode praticar. É escolher seguir adiante mesmo quando o coração ainda conversa com o passado.

Durante muito tempo pensei que os recomeços acontecessem apenas quando tudo estivesse organizado. Descobri que não. Eles nascem justamente no meio da bagunça, entre lágrimas, dúvidas e silêncios. Começam quando decidimos dar o primeiro passo, mesmo sem enxergar todo o caminho.

 

O poeta Mário Quintana escreveu uma frase que atravessa gerações:

"O segredo não é correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você."

Talvez seja exatamente isso que a vida nos peça quando tudo parece desmoronar: cuidar do jardim da nossa alma. Regar a esperança, arrancar as ervas daninhas do ressentimento, adubar os sonhos e confiar que, no tempo certo, a beleza voltará a florescer.

Há recomeços que chegam depois de uma despedida. Outros, após uma decepção, uma doença, uma perda ou um sonho interrompido. Nenhum deles é fácil. Mas todos carregam uma promessa silenciosa: a de que a vida ainda não terminou de escrever a nossa história.

A música "Dias Melhores", da banda Jota Quest, traduz com sensibilidade essa esperança quando canta:

 

"Dias melhores pra sempre..."

 

Não é uma promessa de que tudo será perfeito. É um convite para acreditar que sempre existe um amanhã capaz de surpreender o hoje.

Aprendi que Deus Pai não desperdiça as nossas dores. Cada lágrima amadurece a alma. Cada queda fortalece a fé. Cada recomeço revela uma versão de nós que ainda não conhecíamos.

 

Talvez seja por isso que as árvores não lamentem a queda das folhas. Elas sabem que a primavera não pede licença para chegar.

 

Nós também precisamos acreditar nisso.

 

Porque recomeçar não é apagar o passado. É agradecer por tudo o que ele ensinou e seguir em frente sem carregar o peso do que já não pode ser mudado.

 

A vida continua oferecendo novas páginas, mesmo quando insistimos em reler capítulos que já terminaram.

 

E talvez o maior presente dos recomeços seja descobrir que nunca voltamos a ser quem éramos. Voltamos mais fortes, mais conscientes, mais humanos e, acima de tudo, mais esperançosos.

 

Que nunca nos falte a coragem de começar outra vez. Afinal, enquanto houver vida, haverá sempre uma nova oportunidade para amar, aprender, perdoar e florescer.

 

Porque os recomeços não apagam a nossa história. Eles apenas nos lembram de que o melhor capítulo ainda pode estar por vir.

 

E se a vida lhe oferecesse uma página em branco hoje, você teria coragem de escrever um novo começo?

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Por: Karina Christina Souza
20/07/2026 - 09:54:54

Antes de existirem playlists personalizadas e algoritmos que escolhem o que ouvimos, havia uma trilha sonora construída pelas pessoas que amávamos. As músicas chegavam pelas vitrolas, pelos rádios de pilha, pelos discos de vinil, pelas fitas cassete, pelos CDs e, principalmente, pelas vozes de quem cantava enquanto lavava a louça, dirigia pelas estradas ou preparava o almoço de domingo.

Há canções que nunca envelhecem porque deixaram de ser apenas música. Transformaram-se em memória afetiva.

Basta ouvir os primeiros acordes e, de repente, voltamos no tempo. A cozinha da avó reaparece. O perfume de alguém querido parece atravessar o ar. A sala de casa ganha novamente os risos que hoje moram apenas na lembrança. É como se cada melodia carregasse consigo um álbum inteiro de fotografias invisíveis.

A música tem esse dom extraordinário: ela guarda pessoas. Às vezes, já não nos lembramos exatamente do que alguém nos disse, mas lembramos perfeitamente da canção que essa pessoa gostava de ouvir.

Mas a música brasileira também guarda a história do próprio Brasil. Nossa identidade sonora nasceu do encontro de povos e culturas. Carrega a herança dos povos indígenas, que já faziam da música uma forma de celebrar a vida e a natureza; recebeu as influências dos colonizadores europeus, especialmente dos portugueses, com suas modinhas, violas e cantigas; e ganhou uma riqueza incomparável com os povos africanos, que trouxeram ritmos, tambores, cantos e uma profunda espiritualidade. Mais tarde, italianos, alemães, árabes, japoneses e tantos outros imigrantes também deixaram suas marcas. A Música Popular Brasileira é, antes de tudo, o retrato da nossa miscigenação. Cada acorde conta um pouco da história de um povo que aprendeu a transformar diferenças em beleza.

Quem nunca ouviu "Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e sentiu o cheiro da terra molhada ou a força do povo nordestino? Quem não se emocionou com "Tocando em Frente", de Almir Sater e Renato Teixeira, encontrando consolo em tempos difíceis? Quantas famílias ainda se reúnem ao som de "Romaria", de Renato Teixeira, ou se emocionam com "Naquela Mesa", composta por Sérgio Bittencourt e eternizada na voz de Nelson Gonçalves?

Há músicas que pertencem ao Brasil inteiro. "Aquarela", de Toquinho, nos devolve a infância. "O Caderno", também de Toquinho, faz muitos pais e filhos se abraçarem em silêncio. "Como É Grande o Meu Amor por Você", de Roberto Carlos, continua sendo uma declaração que atravessa gerações. E quando "Trem-Bala", de Ana Vilela, começou a tocar, rapidamente encontrou seu lugar entre as canções que confortam corações e aproximam famílias.

Mas existe uma música que desperta um sentimento diferente de todas as outras. Não está ligada apenas à nossa história pessoal, mas à história de um povo inteiro. É o Hino Nacional Brasileiro.

Há algo profundamente emocionante quando seus primeiros acordes ecoam em uma cerimônia, em uma escola, em um estádio ou em uma solenidade cívica. Instintivamente, muitos de nós nos colocamos de pé. A mão toca o peito, os olhos procuram a bandeira verde, amarela, azul e branca e, por alguns instantes, as diferenças desaparecem. Somos apenas brasileiros.

O Hino Nacional não é apenas uma composição de Francisco Manuel da Silva, com letra de Joaquim Osório Duque-Estrada. É uma lembrança coletiva de quem somos, da história que herdamos e do país que ainda sonhamos construir. Há uma memória afetiva também no patriotismo: a lembrança dos desfiles de Sete de Setembro, das apresentações escolares, dos jogos da Seleção Brasileira de Futebol masculino, bem como de todas as modalidades esportivas brasileiras e daqueles momentos em que cantar o hino significou sentir orgulho de pertencer a esta terra.

Talvez seja essa a magia da música: ela consegue unir o íntimo e o coletivo. Algumas canções nos levam de volta ao colo da mãe. Outras nos fazem recordar um grande amor. E há aquelas que nos lembram que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos: uma família, uma comunidade, um estado e um país.

Talvez seja por isso que a música sobreviva ao tempo. Ela não conhece calendários. Uma canção pode permanecer décadas em silêncio e bastam alguns segundos para despertar emoções que imaginávamos adormecidas.

Penso que herdamos muito mais do que sobrenomes, fotografias ou objetos de família. Herdamos também canções. E, sem perceber, vamos passando esse patrimônio adiante. Os filhos aprendem as músicas dos pais. Os netos descobrem as preferidas dos avós. E, entre tantas melodias, ensinamos também o respeito pelo Hino Nacional, para que as novas gerações compreendam que amar um país é, antes de tudo, cuidar das pessoas que vivem nele.

Talvez seja esse um dos maiores patrimônios do Brasil: um país de muitas origens, muitas vozes e muitos ritmos, que aprendeu a transformar diversidade em harmonia. Afinal, quando a música toca, pouco importa de onde viemos. Por alguns minutos, cantamos todos a mesma canção.

E talvez seja exatamente por isso que a música seja uma das formas mais bonitas de eternidade. Ela sobrevive ao tempo, vence o silêncio e desafia a ausência. Quando alguém parte, sua voz pode até se calar, mas a canção que amava continua encontrando um jeito de chegar até nós. Basta um acorde, um refrão, uma melodia conhecida, e o coração reconhece aquilo que a memória jamais esqueceu.

Acredito que, um dia, todos nós seremos lembrados por uma música. Haverá uma canção que fará alguém sorrir ao recordar o nosso abraço, outra que arrancará lágrimas de saudade e outra que fará renascer histórias que pareciam adormecidas. Porque as pessoas passam, mas o amor que elas espalham encontra na música um lugar seguro para permanecer.

E quem sabe seja esse o verdadeiro milagre das canções: elas nos ensinam que ninguém desaparece completamente enquanto continuar existindo na lembrança de alguém. Enquanto houver uma voz cantando, uma família reunida, uma criança aprendendo uma antiga melodia, um torcedor emocionado entoando o Hino Nacional ou um avô ensinando aos netos a música que marcou sua juventude, haverá vida pulsando através das gerações.

No fim, descobrimos que as músicas nunca foram apenas notas, versos ou acordes. Elas são a trilha sonora da nossa existência. Guardam nossas raízes, revelam quem somos, aproximam pessoas, despertam o orgulho da nossa pátria e, sobretudo, preservam aquilo que o tempo jamais consegue levar: o amor.

Porque o amor, quando encontra uma melodia, aprende a permanecer para sempre. E talvez seja por isso que Deus Pai tenha permitido que a música existisse: para que, quando as palavras já não bastassem, fossem as canções a dizer, por nós, tudo aquilo que o coração nunca deixará de sentir.

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Por: Karina Christina Souza
14/07/2026 - 09:41:54

Há dias em que a vida nos convida a diminuir o passo. Não porque o relógio tenha desacelerado, mas porque a alma pede silêncio. É nesses momentos que surgem as perguntas que realmente importam. Entre elas, uma sempre encontra lugar: o que deixaremos quando não estivermos mais aqui?

Não é uma pergunta sobre a morte. É, sobretudo, uma pergunta sobre a vida.

Vivemos como se o amanhã estivesse garantido. Fazemos planos, adiamos encontros, deixamos para depois o abraço, o pedido de perdão, a visita, a ligação, a demonstração de carinho. E, sem perceber, tratamos o tempo como um recurso inesgotável, quando ele é justamente o bem mais precioso que possuímos.

Ao longo da minha caminhada, aprendi que o verdadeiro legado não é construído nos dias extraordinários. Ele nasce na simplicidade dos dias comuns.

Foi cuidando de minha mãe, nos seus últimos anos de vida, que compreendi o significado da presença. A doença foi apagando lembranças, mas jamais apagou o amor. Naquele tempo, descobri que existem formas de permanecer que desafiam o próprio tempo. Minha mãe continua viva nas palavras que escolho, nos valores que carrego e na forma como aprendi que amar é permanecer, mesmo quando a vida nos impõe despedidas.

Como advogada, acompanho histórias de disputas por bens, patrimônios e heranças. São processos necessários. Mas existe uma herança que nunca será discutida diante de um juiz: o exemplo. Esse ninguém consegue dividir, contestar ou retirar. Ele permanece para sempre na memória de quem ficou.

Também aprendi, no Lions Clube Santa Cruz, que servir transforma não apenas quem recebe, mas principalmente quem oferece. Cada ação voluntária nos lembra que uma vida encontra sentido quando se torna útil para outra vida. Não existe gesto de amor pequeno demais. Às vezes, uma palavra dita no momento certo muda uma história para sempre.

Vivemos em um tempo em que o sucesso parece ser medido por números: quantos seguidores, quantos bens, quantos títulos, quantas conquistas. Mas raramente perguntamos quantos corações aquecemos, quantas lágrimas ajudamos a enxugar ou quantas pessoas se sentiram melhores simplesmente porque cruzaram o nosso caminho.

Talvez seja essa a verdadeira medida de uma existência.

Sabiamente a escritora Cora Coralina escreveu: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina." Sempre que releio essa frase, lembro que o conhecimento é um legado, mas a bondade também é. A generosidade também é. A esperança também é.

Há uma canção que atravessa gerações e parece conversar diretamente com essa reflexão. "Naquela Mesa", composta por Sérgio Bittencourt em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim, foi gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso e, mais tarde, eternizada na voz de Nelson Gonçalves. Em um de seus versos mais emocionantes, ouvimos: "Naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim...". São poucas palavras, mas suficientes para despertar lembranças em quem já precisou, e ainda necessita lidar com a ausência de alguém amado. Porque algumas pessoas nunca vão embora por completo. Permanecem na cadeira vazia, nas receitas de família, nos conselhos que ainda ecoam, nas histórias contadas entre risos e lágrimas. Permanecem na saudade — e a saudade, quando nasce do amor, também é uma forma de permanência.

 

Quando penso em meu pai, já na maturidade da vida, percebo que os anos têm um jeito curioso de separar o essencial do supérfluo. No fim, não são os bens que nos representam. São as pessoas que amamos, os valores que defendemos e o bem que espalhamos.

 

Talvez ninguém se lembre exatamente de tudo o que fizemos. Mas sempre haverá alguém que se recordará de como o fizemos sentir.

E talvez esse seja o maior milagre da existência: continuar vivendo na bondade, na generosidade, na esperança e na humanidade que inspiramos.

Que, quando a nossa cadeira estiver vazia, nossa ausência seja preenchida pelas boas lembranças. Que nossas palavras continuem ecoando em quem precisava delas. Que nossos gestos inspirem outras mãos a servir. Que nosso amor continue encontrando caminhos para florescer.

Porque a vida é breve. Mas o bem que fazemos pode atravessar gerações.

No fim, descobriremos que nosso maior patrimônio nunca esteve no que acumulamos, mas naquilo que fomos capazes de semear.

 

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Por: Karina Christina Souza
08/07/2026 - 08:00:53

Quando a Copa chega, o Brasil se encontra

Há algo de extraordinário na Copa do Mundo. Ela consegue fazer o que poucas coisas ainda conseguem: unir milhões de pessoas em torno de um mesmo sentimento. Quando a seleção brasileira entra em campo, o Brasil parece respirar junto, sofrer junto, comemorar junto e sonhar junto.

Nas grandes capitais ou nas pequenas cidades do interior, a emoção é a mesma. Aqui na Bahia, a Copa chega como quem chega para uma festa de família. As ruas ganham bandeiras, as casas se enfeitam, os vizinhos se reúnem e as conversas passam a girar em torno da próxima partida. Por alguns dias, o país parece reencontrar uma parte importante de si mesmo.

Antes mesmo do apito inicial, as camisas amarelas saem dos armários e a esperança ocupa espaço nos corações. É como se o Brasil inteiro se preparasse para uma celebração coletiva da sua própria identidade.

E que identidade bonita é essa.

Quando ouvimos os primeiros acordes do Hino Nacional Brasileiro, algo especial acontece. Poucos hinos no mundo despertam tanta emoção. Seus versos falam de coragem, resistência, amor à liberdade e confiança no futuro. Quando milhares de vozes cantam juntas "Verás que um filho teu não foge à luta", não estão apenas repetindo palavras. Estão reafirmando a força de um povo que aprendeu a enfrentar dificuldades sem perder a esperança.

Cantado a plenos pulmões pelos jogadores e pela torcida, o hino transforma-se em um momento de comunhão nacional. Por alguns minutos desaparecem as diferenças políticas, sociais e regionais. Somos apenas brasileiros.

Talvez nenhum brasileiro tenha representado tão bem esse sentimento quanto . Mais do que o Rei do Futebol, Pelé apresentou o Brasil ao mundo. Com sua genialidade, transformou o futebol em linguagem universal e ajudou a construir uma imagem de um país criativo, alegre e talentoso.

Décadas depois, outra gigante ampliaria esse legado com talento, determinação e coragem, Marta abriu caminhos para gerações de meninas que passaram a acreditar que também poderiam ocupar seu espaço nos gramados e na história. Pelé e Marta são símbolos de um Brasil que inspira, supera desafios e encanta o mundo.

A torcida brasileira também é parte desse espetáculo. Seu jeito irreverente, festivo e apaixonado encanta estrangeiros e transforma cada partida em uma celebração popular. O brasileiro canta, dança, abraça desconhecidos, comemora nas ruas e compartilha emoções como se todos pertencessem à mesma família.

Talvez seja por isso que tantos povos simpatizem com o Brasil durante as Copas. Eles não enxergam apenas uma seleção. Enxergam um povo que, mesmo diante das dificuldades, preserva a capacidade de sorrir, acolher e acreditar.

Existe ainda a histórica rivalidade com a Argentina. Uma rivalidade que atravessa gerações e produz alguns dos maiores capítulos do futebol mundial. Mas as grandes rivalidades esportivas têm valor justamente porque nos ensinam que é possível competir sem odiar. O verdadeiro espírito esportivo não se mede apenas pelas vitórias, mas pela capacidade de respeitar o adversário, reconhecer talentos e compreender que derrotas também fazem parte da caminhada.

A Copa também fortalece os laços que unem o Brasil aos países africanos. Em muitos momentos, os brasileiros se identificam com essas seleções porque reconhecem nelas parte de suas próprias raízes. A influência africana está presente em nossa música, em nossa culinária, em nossa religiosidade, em nossa linguagem e em nossa forma de enxergar a vida.

Da mesma forma, existe uma afeição natural pelos países que compartilham conosco a língua portuguesa, como Cabo Verde e Gana. A língua cria pontes invisíveis de amizade, pertencimento e reconhecimento.

E talvez seja justamente por isso que tantos países torçam pelo Brasil. Porque o futebol brasileiro representa mais do que vitórias. Representa criatividade, alegria, ousadia e beleza. Representa a criança jogando bola na rua, a pelada no fim da tarde, o improviso, a ginga e a capacidade de transformar o esporte em arte.

Como nas canções de Caymmi, que cantava o mar, a simplicidade e a alma do povo baiano, o futebol brasileiro também carrega poesia. Há algo de musical em nossos passes, algo de dança em nossos dribles e algo de esperança em cada partida.

Talvez por isso o mundo se encante tanto com o Brasil. Não apenas pelos títulos, mas pela forma como joga, pela alegria que transmite e pela emoção que compartilha.

Aqui na Bahia, terra de tantas manifestações culturais, de fé, de história e de encontros, entendemos bem o valor da coletividade. O próprio Hino da Bahia nos lembra da força de um povo unido quando proclama:

"Nunca mais o despotismo regerá nossas ações."

É um verso que fala de liberdade, identidade e pertencimento. Valores que, de certa forma, também se manifestam quando milhões de brasileiros vestem a mesma camisa e torcem pelo mesmo sonho.

Quando a Copa começa, não entram em campo apenas onze jogadores. Entram também nossas memórias, nossos ídolos, nossas raízes e nossas esperanças.

E, por alguns dias, o Brasil inteiro se reconhece no mesmo abraço, na mesma canção e na mesma emoção.

Porque a maior conquista da Copa talvez não seja levantar uma taça.

Talvez seja nos lembrar que, apesar de tudo, ainda somos capazes de sonhar juntos.

E um povo que ainda sonha junto jamais perde sua grandeza.

 

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Por: Karina Christina Souza
29/06/2026 - 10:45:55

"Nasce o Sol a 2 de Julho, brilha mais que no primeiro..."

Toda vez que ouço esse trecho do Hino da Bahia, sinto um arrepio difícil de explicar. Talvez porque ele fale de liberdade. Talvez porque ele fale de pertencimento. Ou talvez porque, sendo filha do interior baiano, eu saiba que a Bahia não é apenas um lugar onde moro. Ela é uma parte de quem sou.

Quando alguém me pergunta o que é que a Bahia tem, minha vontade é responder com outra pergunta: quanto tempo você tem para ouvir?

Porque a Bahia tem séculos de histórias guardadas em suas igrejas, casarões, praças, terreiros e ruas de pedra. Tem a memória dos povos indígenas que aqui viviam muito antes da chegada dos portugueses. Tem a herança dos povos africanos que, mesmo arrancados de sua terra natal, trouxeram consigo sua cultura, religiosidade, culinária, música e sabedoria, ajudando a construir uma das identidades mais ricas do mundo.

A Bahia foi a primeira capital do Brasil. Foi palco de lutas decisivas para a independência do país. Foi porta de entrada de culturas que ajudaram a formar aquilo que hoje entendemos como brasilidade.

Por isso, falar da Bahia é falar do Brasil.

A Bahia está na língua que falamos, nos ritmos que dançamos, nos sabores que experimentamos, nas manifestações religiosas, na arte, na literatura e na música que atravessam gerações.

E que música!

Quando penso na Bahia, penso em Dorival Caymmi cantando o mar com uma sensibilidade que poucos artistas conseguiram alcançar:

"O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito..."

Caymmi transformou a Bahia em poesia. Mas ele não foi o único. A Bahia deu ao Brasil talentos extraordinários como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Jorge Amado, Castro Alves, entre tantos outros que ajudam a contar a alma brasileira ao mundo.

Mas a Bahia também canta através de seu povo anônimo.

Na voz da marisqueira, do pescador, da rendeira, do sanfoneiro das festas juninas e das senhoras que preservam receitas centenárias.

E que culinária!

O acarajé, o vatapá, o caruru, a moqueca, a cocada, o abará e tantas outras delícias contam histórias de encontros entre povos e culturas. Cada prato carrega séculos de tradição e afeto. Comer aqui na Bahia é experimentar um pedaço da nossa memória coletiva.

A Bahia tem ainda uma religiosidade que impressiona.

Aqui convivem lado a lado igrejas centenárias e terreiros ancestrais. O catolicismo popular, as tradições de matriz africana e tantas outras expressões de fé dialogam e ajudam a construir uma identidade marcada pelo respeito ao sagrado e pela esperança.

Talvez por isso o povo baiano tenha aprendido a agradecer tanto. A pedir bênçãos para a caminhada. A confiar que, mesmo diante das dificuldades, a vida encontra um jeito de florescer.

A Bahia também vibra no esporte.

Nas arquibancadas, multidões se dividem entre o amor pelo Esporte Clube Bahia e pelo Esporte Clube Vitória. Rivalidade que movimenta paixões e ajuda a contar a história cultural do estado.

Mas, para mim, torcedora do Bahia e que vive no interior, a maior riqueza da Bahia não está apenas nos grandes monumentos, nos artistas famosos ou nas paisagens exuberantes.

Está nos detalhes.

Está no cheiro da terra quando a chuva chega depois de meses de seca.

Está no cafezinho oferecido a quem bate à porta.

Está na conversa sem pressa na calçada ao final da tarde.

Está no senhor que conhece a história de cada família da cidade.

Está nas festas juninas iluminando as ruas e reunindo gerações inteiras ao redor de uma fogueira.

Está no sentimento de comunidade que resiste mesmo em tempos de individualismo.

A Bahia tem praias que parecem pinturas, como as da Costa do Descobrimento e da Costa dos Coqueiros. Tem a imponência da Chapada, o encanto do Recôncavo, a força do sertão e a beleza silenciosa do interior. Tem paisagens que mudam, mas nunca deixam de emocionar.

E talvez seja justamente essa diversidade que faça da Bahia algo tão especial.

As cores da bandeira baiana — o vermelho, o branco e o azul — parecem traduzir um pouco dessa história: a coragem, a paz e a esperança de um povo que nunca deixou de acreditar em dias melhores.

Por isso, quando me perguntam o que é que a Bahia tem, eu não penso primeiro nas praias, nem nos monumentos, nem mesmo na sua importância histórica.

Eu penso nas pessoas.

Penso nos rostos, nas histórias, nos afetos e nos encontros que moldaram esta terra.

Porque a Bahia tem cultura. Tem patrimônio. Tem talento. Tem fé. Tem gastronomia.

Tem natureza. Tem história.

Mas o que a Bahia tem de mais bonito é a capacidade de fazer cada um de nós sentir que pertence a algo maior.

E talvez eu nunca consiga responder completamente. Porque a Bahia não é apenas um lugar. A Bahia é uma sensação. É uma memória. É uma forma de olhar para a vida.

Só depois percebi que esses pequenos tesouros não existem em todo lugar.

A Bahia onde vivo não é apenas a dos cartões-postais. É a Bahia das estradas cercadas de verde e poeira, das feiras livres cheias de cores e vozes, das pessoas que ainda perguntam pela família quando nos encontram na rua. É a Bahia onde o tempo, às vezes, parece caminhar um pouco mais devagar, como se nos lembrasse da importância de viver cada momento.

A Bahia nasceu do encontro — nem sempre justo, nem sempre pacífico — entre diferentes povos. E talvez por isso tenha aprendido tão bem a conviver com a diversidade, a acolher diferenças e a transformar adversidades em força.

Quando caminho pelas ruas da minha cidade, penso que carrego dentro de mim um pouco dessa herança. Sou filha de uma terra construída por muitas mãos, muitas histórias e muitos sonhos.

E talvez seja isso que mais me emociona.

Porque ser baiana não é apenas nascer na Bahia. É sentir orgulho de um povo que aprendeu a resistir. É reconhecer a beleza das próprias raízes. É saber que existe uma riqueza imensa nas coisas simples.

Vivemos tempos em que tudo parece urgente. As notícias chegam rápido. As relações se tornam superficiais. As pessoas vivem conectadas ao mundo inteiro, mas, muitas vezes, desconectadas de si mesmas.

Nessas horas, o interior da Bahia me ensina.

Me ensina que vale a pena parar para ouvir uma história contada pelos mais velhos. Que existe sabedoria em quem viveu muito. Que o pôr do sol não precisa de filtros. Que uma mesa compartilhada pode curar tristezas. Que a felicidade, quase sempre, mora nas coisas que o dinheiro não compra.

Talvez seja por isso que eu ame tanto esta terra.

Porque ela me lembra quem eu sou.

Ela me lembra que pertenço a uma história maior do que a minha própria existência. Uma história feita de coragem, fé, trabalho, resistência e afeto.

Por isso, quando alguém me pergunta o que é que a Bahia tem, eu respondo com o coração de quem vive e sente esta terra todos os dias:

A Bahia tem mar, tem sertão, tem cultura, tem fé e tem uma história que ajudou a construir o Brasil.

Mas o que a Bahia tem de mais precioso são as pessoas.

Pessoas que, apesar das dificuldades, continuam encontrando razões para sorrir. Pessoas que sabem acolher. Pessoas que transformam a luta em esperança.

E eu, daqui do interior, olhando o movimento tranquilo da minha cidade, acredito que o maior segredo da Bahia talvez seja este:

a capacidade de nos fazer sentir em casa, mesmo quando o mundo lá fora parece perdido.

E isso, convenhamos, é uma riqueza que não cabe em estatísticas, nem em livros de história.

Só cabe no coração.

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