Por: Karina Christina Souza
14/07/2026 - 09:41:54

Há dias em que a vida nos convida a diminuir o passo. Não porque o relógio tenha desacelerado, mas porque a alma pede silêncio. É nesses momentos que surgem as perguntas que realmente importam. Entre elas, uma sempre encontra lugar: o que deixaremos quando não estivermos mais aqui?

Não é uma pergunta sobre a morte. É, sobretudo, uma pergunta sobre a vida.

Vivemos como se o amanhã estivesse garantido. Fazemos planos, adiamos encontros, deixamos para depois o abraço, o pedido de perdão, a visita, a ligação, a demonstração de carinho. E, sem perceber, tratamos o tempo como um recurso inesgotável, quando ele é justamente o bem mais precioso que possuímos.

Ao longo da minha caminhada, aprendi que o verdadeiro legado não é construído nos dias extraordinários. Ele nasce na simplicidade dos dias comuns.

Foi cuidando de minha mãe, nos seus últimos anos de vida, que compreendi o significado da presença. A doença foi apagando lembranças, mas jamais apagou o amor. Naquele tempo, descobri que existem formas de permanecer que desafiam o próprio tempo. Minha mãe continua viva nas palavras que escolho, nos valores que carrego e na forma como aprendi que amar é permanecer, mesmo quando a vida nos impõe despedidas.

Como advogada, acompanho histórias de disputas por bens, patrimônios e heranças. São processos necessários. Mas existe uma herança que nunca será discutida diante de um juiz: o exemplo. Esse ninguém consegue dividir, contestar ou retirar. Ele permanece para sempre na memória de quem ficou.

Também aprendi, no Lions Clube Santa Cruz, que servir transforma não apenas quem recebe, mas principalmente quem oferece. Cada ação voluntária nos lembra que uma vida encontra sentido quando se torna útil para outra vida. Não existe gesto de amor pequeno demais. Às vezes, uma palavra dita no momento certo muda uma história para sempre.

Vivemos em um tempo em que o sucesso parece ser medido por números: quantos seguidores, quantos bens, quantos títulos, quantas conquistas. Mas raramente perguntamos quantos corações aquecemos, quantas lágrimas ajudamos a enxugar ou quantas pessoas se sentiram melhores simplesmente porque cruzaram o nosso caminho.

Talvez seja essa a verdadeira medida de uma existência.

Sabiamente a escritora Cora Coralina escreveu: "Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina." Sempre que releio essa frase, lembro que o conhecimento é um legado, mas a bondade também é. A generosidade também é. A esperança também é.

Há uma canção que atravessa gerações e parece conversar diretamente com essa reflexão. "Naquela Mesa", composta por Sérgio Bittencourt em homenagem a seu pai, Jacob do Bandolim, foi gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso e, mais tarde, eternizada na voz de Nelson Gonçalves. Em um de seus versos mais emocionantes, ouvimos: "Naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim...". São poucas palavras, mas suficientes para despertar lembranças em quem já precisou, e ainda necessita lidar com a ausência de alguém amado. Porque algumas pessoas nunca vão embora por completo. Permanecem na cadeira vazia, nas receitas de família, nos conselhos que ainda ecoam, nas histórias contadas entre risos e lágrimas. Permanecem na saudade — e a saudade, quando nasce do amor, também é uma forma de permanência.

 

Quando penso em meu pai, já na maturidade da vida, percebo que os anos têm um jeito curioso de separar o essencial do supérfluo. No fim, não são os bens que nos representam. São as pessoas que amamos, os valores que defendemos e o bem que espalhamos.

 

Talvez ninguém se lembre exatamente de tudo o que fizemos. Mas sempre haverá alguém que se recordará de como o fizemos sentir.

E talvez esse seja o maior milagre da existência: continuar vivendo na bondade, na generosidade, na esperança e na humanidade que inspiramos.

Que, quando a nossa cadeira estiver vazia, nossa ausência seja preenchida pelas boas lembranças. Que nossas palavras continuem ecoando em quem precisava delas. Que nossos gestos inspirem outras mãos a servir. Que nosso amor continue encontrando caminhos para florescer.

Porque a vida é breve. Mas o bem que fazemos pode atravessar gerações.

No fim, descobriremos que nosso maior patrimônio nunca esteve no que acumulamos, mas naquilo que fomos capazes de semear.

 

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