Por: Karina Christina Souza
13/10/2026 - 12:45:30

O brasileiro é um povo de fé. Mas será que a fé que a gente carrega no coração também aparece no nosso jeito de viver?

Quem vive na Bahia sabe que a fé faz parte da vida de um jeito muito particular. Ela está naquele pedido antes de pegar a estrada, na oração da mãe quando o filho sai de casa, na promessa feita com o coração apertado e naquele costume tão nosso de dizer: “Se Deus quiser, vai dar tudo certo!”

Eita, como a gente fala de Deus!

A fé está na missa de domingo, no culto, nas procissões pelas ruas, nas celebrações dos terreiros e nas orações silenciosas de quem encontra um tempinho para conversar com o Criador. Está na mulher que acorda cedo, prepara o café e pede força para enfrentar mais um dia. No trabalhador que sai ainda de madrugada para garantir o pão de cada dia. Na família que, mesmo com as contas apertadas, agradece pelo alimento que não faltou à mesa.

Porque o nosso povo conhece bem as durezas da vida. Tem mês em que o dinheiro mal dá para pagar as contas, tem preocupação que tira o sono e tem notícia que deixa o coração da gente apertado. Nessas horas, a fé vira colo, coragem e esperança.

Mas, conversando aqui com vocês, quero trazer uma reflexão: será que a fé que professamos também aparece na maneira como tratamos as pessoas?

Pense na cena: alguém sai da igreja depois de ouvir uma bonita mensagem sobre amor e perdão. No primeiro aborrecimento no trânsito, perde a paciência, solta o verbo e deseja tudo de ruim ao motorista que lhe deu uma fechada.

Oxente! E o perdão ficou lá dentro da igreja?

Ou então aquela pessoa que compartilha mensagens religiosas no WhatsApp, deseja um dia abençoado para todo mundo, mas, dentro de casa, não tem paciência com os pais, responde atravessado aos filhos e trata mal quem está por perto.

E o que dizer de quem pede a Deus prosperidade, mas tenta levar vantagem sobre o cliente? De quem reza pela família, mas não encontra tempo para visitar a mãe idosa? De quem fala tanto de amor ao próximo, mas não consegue sequer cumprimentar um vizinho com quem teve uma desavença?

Calma, minha gente! Não estou aqui para apontar o dedo para ninguém. Até porque, antes de olhar para a vida alheia, cada um de nós precisa dar uma espiadinha na própria consciência.

Quem nunca perdeu a paciência? Quem nunca falou o que não devia? Quem nunca precisou reconhecer um erro e pedir desculpas?

Ter fé não significa ser perfeito. Significa, também, reconhecer que precisamos melhorar, aprender com nossos tropeços e tentar fazer diferente no dia seguinte.

E, quando penso em fé, uma lembrança muito especial me vem ao coração: minha mãe.

Lembro dela com o terço nas mãos, agradecendo a Deus e pedindo sabedoria e paz. Lembro de quanto gostava de ir à missa e de sua devoção a Nossa Senhora das Graças.

Essa imagem ficou guardada em mim. E, quando penso nela, percebo que a fé pode ensinar muito sem precisar de grandes discursos. Está na oração repetida com confiança, no agradecimento feito com sinceridade e na busca por serenidade para enfrentar os desafios da vida.

Minha mãe me faz pensar em tantas mulheres brasileiras que carregam a fé no peito e a expressam nos pequenos gestos. Mulheres que rezam pelos filhos, pedem proteção para a família, agradecem pelas conquistas e encontram na oração forças para atravessar os dias difíceis.

Talvez a gente nem compreenda, em determinada fase da vida, a profundidade desses gestos. Só depois, com o tempo e as experiências, percebe o valor dessas lembranças.

Hoje, ao recordar minha mãe e sua devoção a Nossa Senhora das Graças, penso nas heranças que recebemos de quem amamos. Algumas lições não chegam por meio de conselhos demorados. São aprendidas pelo exemplo, pela constância e por aquelas cenas simples que ficam guardadas no coração.

E essa lembrança também me ensina algo importante: não basta pedir a Deus que nos conceda sabedoria. É preciso procurar agir com sabedoria. Não basta pedir paz. Precisamos aprender a não alimentar conflitos desnecessários. Não basta agradecer pelas bênçãos recebidas. Podemos também nos tornar uma bênção na vida de alguém.

Afinal, a fé aparece nas coisas miúdas do cotidiano.

Está na vizinha que prepara um prato de comida e divide com quem está passando necessidade. No amigo que percebe nossa tristeza e pergunta, de coração: “Ô, meu bem, aconteceu alguma coisa? Quer conversar?”

Está naquele motorista que dá passagem a um pedestre, no comerciante que age com honestidade, no filho que arranja um tempinho para visitar os pais e na pessoa que pede desculpas porque entende que o orgulho não vale mais do que uma relação importante.

São gestos simples, desses que acontecem sem anúncio, sem fotografia e sem curtida nas redes sociais. Mas que podem mudar o dia de alguém.

Também precisamos compreender que a fé não deveria ser motivo de disputa. A Bahia é rica em tradições e manifestações religiosas. Há quem encontre seu caminho na Igreja Católica, nas igrejas evangélicas, nas religiões de matriz africana, no espiritismo e em outras experiências de espiritualidade. Há também quem não professe religião alguma.

Respeitar essa diversidade é reconhecer a dignidade de cada pessoa.

Não combina pedir paz a Deus e espalhar intolerância. Não combina falar de amor e humilhar quem pensa diferente. A fé não deveria nos afastar uns dos outros, mas nos ajudar a compreender que todo mundo tem suas lutas, seus medos e suas esperanças.

E sabe o que acho interessante? Muitas vezes, a pessoa que mais demonstra bondade não é necessariamente aquela que mais fala de religião. É aquela que aparece quando a gente precisa, que ajuda sem fazer propaganda, que escuta sem julgar e que estende a mão sem perguntar em quem você acredita.

Isso não diminui a importância da oração, da missa, do culto ou das tradições religiosas. Pelo contrário. É um convite para que aquilo em que acreditamos também se revele na maneira como vivemos.

Porque não adianta pedir uma vida melhor e continuar alimentando rancor. Não adianta pedir proteção para os filhos e esquecer de ensinar respeito. Não adianta pedir prosperidade e passar por cima dos outros para conseguir o que queremos.

A vida já tem suas durezas. A gente sabe muito bem disso. Por isso, não custa tentar torná-la um pouco mais leve para quem caminha ao nosso lado.

E você, que me acompanha nestas conversas cotidianas, já parou para pensar em como vive a sua fé?

Ela aparece na maneira como você trata quem não pode lhe oferecer nada em troca? Na paciência com os mais velhos? Na honestidade quando ninguém está olhando? Na capacidade de reconhecer os próprios erros? No respeito por quem pensa diferente?

Talvez não precisemos começar com grandes promessas. Podemos começar amanhã, dentro de casa, no trabalho, na fila do banco, no trânsito ou naquela conversa difícil que estamos adiando.

Podemos começar ouvindo mais, julgando menos, respeitando as diferenças e oferecendo ajuda sem esperar reconhecimento.

Eu acredito que a fé tem um valor imenso na vida de muita gente. Ela consola, fortalece, renova a esperança e nos ajuda a seguir quando o caminho parece difícil. Mas acredito também que ela ganha um significado ainda mais bonito quando sai das palavras e chega às atitudes.

Que nunca nos falte fé para rezar, humildade para agradecer e sabedoria para fazer escolhas melhores. Que a gente conserve as boas lembranças de quem nos ensinou a acreditar e tenha coragem para transformar esses ensinamentos em gestos concretos de amor.

E, se me permitem terminar nossa conversa a de hoje com uma pergunta, aqui vai:

De que adianta pedir tantas bênçãos ao céu se a gente não consegue oferecer um pouquinho de bondade a quem está aqui na Terra?

 

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