
Quando pensamos em transtorno bipolar, logo nos vem à mente um paciente com episódios frequentes de mudanças de humor e pensamentos acelerados e megalomaníacos típicos da fase de mania. Entretanto, há uma característica da doença que poucos conhecem e que merece bastante atenção: a depressão.
A grosso modo, ela é bem diferente da depressão unipolar – mais conhecida – porque, neste caso específico, o paciente sofre uma “descompensação” de duas variáveis, indo de um extremo ao outro num curto intervalo de tempo.
Em um momento o indivíduo está eufórico, com bom humor, toma decisões arriscadas, fala sobre diversos assuntos simultaneamente e tem mil projetos, mas depois de duas semanas, por exemplo, ele entra em um estado depressivo, fica irritadiço, evita qualquer convívio social e tem dificuldade para dormir. De maneira geral, bastam sete dias nesse estado para se ter o diagnóstico da depressão, segundo os psiquiatras.

No jargão médico, costuma-se dizer que o indivíduo bipolar é um paciente cíclico e quando uma crise se instala, há alternância de humores, o que não ocorre com a depressão unipolar.
Segundo o dr. José Alberto Del Porto, professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), cerca de 35% dos pacientes bipolares levam até dez anos para obter o diagnóstico correto. Muitos acabam passando um longo período apenas com diagnóstico de depressão – isso chega a ocorrer em cerca de 50% dos casos -, o que é preocupante, já que os medicamentos indicados para tratar a depressão bipolar são diferentes.
“É necessário uma boa anamnese, inclusive com a participação dos familiares, porque os pacientes com transtorno bipolar, na maioria das vezes, não citam espontaneamente os episódios de mania ou hipomania [forma menos intensa de mania] que podem se alternar com as crises depressivas. Existem escalas de avaliação, como a Hypomania Symptom Check List, de Jules Angst (validada para uso no Brasil), que podem auxiliar no diagnóstico correto.”
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Na verdade, como a hipomania é considerada uma mania mais “leve”, que interfere menos no dia a dia, o paciente pode até achar que está tudo bem, pois se sente eufórico, muito melhor que o habitual. Além disso, é nessa fase que muitos acabam abandonando o tratamento por conta própria, por se julgarem curados. No entanto, o transtorno é crônico e exige tratamento contínuo e preventivo, porque até mesmo o estado de hipomania pode causar prejuízos em várias esferas da vida, por conta do aumento da irritabilidade e da impaciência, por exemplo.
Outro ponto importante diz respeito ao tratamento. Se o paciente bipolar for tratado somente com antidepressivos, pode ser que os episódios de euforia se intensifiquem ainda mais.
“Para a depressão bipolar se utilizam, em primeiro lugar, os estabilizadores de humor, como lítio e lamotrigina, associados a algum antipsicótico, como quetiapina, lurasidona (que chegou recentemente ao Brasil) e olanzapina, por exemplo”, explica Del Porto.
A importância de um diagnóstico precoce de bipolaridade se torna ainda mais fundamental por conta do risco de suicídio, principalmente na fase depressiva.
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