
No fim de 2014, a síndrome de Guillain-Barré virou notícia após alguns relatos da cientista política Lúcia Hipólito sobre como ela foi acometida de repente pela doença e sobre as conquistas diárias de sua reabilitação.
A síndrome é um exemplo de polirradiculoneurite, patologia caracterizada por uma fraqueza muscular que pode ser súbita ou insidiosa, mas que, em dois ou três dias, começa a subir pelo organismo. Ou seja, dos membros inferiores para a cintura pélvica e, depois, para o tronco, podendo comprometer, inclusive, as estruturas cerebrais (bulbo e ponte) localizadas no tronco cerebral.
A síndrome de Guillain-Barré pode ocasionar a morte, o que, atualmente, acontece em 10% dos pacientes, devido à parada cardiorrespiratória. Por isso, é muito importante a atenção redobrada do neurologista para o acompanhamento do paciente na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde mais de 50% dos casos necessita de ventilação mecânica na fase aguda.
Esta patologia geralmente acontece após uma infecção viral nas vias aéreas superiores ou em momentos de imunodepressão dos pacientes. As principais condutas na fase aguda são a plasmaferese e a administração de imunoglobulina humana que, por si só, podem salvar a vida desses pacientes.
A maioria deles recupera-se completamente, com cura e resgate da força muscular. Porém, uma grande parte destes mesmos pacientes necessita de um projeto de reabilitação para readquirir funções motoras, principalmente o resgate da marcha. É neste momento que o reabilitador deve organizar uma equipe multidisciplinar como neurologista, patologista muscular, fisioterapeutas e hidrocinesioterapeutas, entre outros.
Anatomopatologicamente, essa síndrome se caracteriza por um edema seroso das fibras mielínicas. O exame de liquor é importante, pois revela uma dissociação proteíno-citológica, com aumento desproporcional de proteínas. Outro exame fundamental é a eletroneuromiografia, que caracteriza o processo desmielinizante. Em alguns casos, a biopsia muscular também pode ser interessante para um diagnostico diferenciado.
Ressaltamos, no entanto, que este diagnóstico é basicamente clínico e que é da astúcia do neurologista e da rapidez de conduta que depende a vida desses pacientes.
Para finalizar, conto que, pessoalmente, tenho incluído na minha equipe particular multidisciplinar sempre o auxílio de psicólogos, tendo em vista a participação emocional na natureza desses processos.
*Beny Schmidt é patologista neuromuscular