Por: Helio Amorim
20/01/2014 - 12:32:36

No Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Cáritas Brasileira lançaram a campanha mundial contra a fome, a pobreza e as desigualdades.

Com o tema "Uma família humana, pão e justiça para todas as pessoas", queremos sensibilizar e mobilizar a sociedade sobre essas realidades responsáveis por grandes mazelas no mundo e no Brasil.

A campanha faz parte de uma mobilização mundial da Caritas Internationalis, que articulou as 164 organizações membro para esse grande movimento em favor da vida, dos direitos humanos e da justiça social.  Flávio Giovanelli Bispo de Santarém e presidente da Cáritas Brasileira

O papa Francisco, em sua primeira exortação apostólica, chamou a atenção ao dizer que "não se pode tolerar mais o fato de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isso é desigualdade social. Assim como o mandamento ‘não matar’ põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, também hoje devemos dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social".Esta economia mata. Dessa forma, o Santo Padre reafirma a opção da Igreja pelos empobrecidos e a urgente necessidade de pararmos e prestarmos atenção à realidade que está em nossa volta.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) diz que, hoje, 842 milhões de pessoas sofrem com a fome no mundo, ou seja, um em cada oito seres humanos não tem acesso a uma alimentação adequada e de qualidade.

O Relatório da Riqueza Global, lançado este ano pelo banco suíço Credit Suisse, afirma que, se a riqueza produzida no mundo em 2013, que foi de US$ 241 trilhões, fosse distribuída em partes iguais entre as pessoas adultas do planeta, cada um iria receber US$ 56.600. Não podemos mais admitir esses dados: os 10% mais ricos controlam 86% da riqueza global, enquanto apenas 32 milhões de adultos, em um mundo com 7 bilhões de habitantes, possuem 41% da riqueza mundial. Além disso, dois terços dos adultos da humanidade - 3,2 bilhões - só conseguem dividir 3% da riqueza mundial.

O Brasil, como muito se tem divulgado, é a sexta economia mais rica do mundo, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas 57 milhões de pessoas vivem em estado de pobreza, ou seja, sobrevivem com meio salário mínimo.Mesmo com programas de distribuição de renda promovidos pelo governo federal, como o Bolsa Família, 20% dos mais ricos ainda detém 63,8% da renda nacional, enquanto os 20% mais pobres acessam apenas 2,5% de toda a riqueza que é produzida pelo país. O "Atlas de Exclusão Social: os ricos no Brasil" mostra que o país tem mais de 51 milhões de famílias, mas somente 5 mil apropriam-se de 45% de toda a riqueza e renda nacional.

É fato que o Brasil tirou milhões de brasileiros da extrema pobreza, mas em que condições? É aceitável definir a pobreza a partir de uma quantidade de dólares ou reais por dia? Trata-se da superação efetiva das necessidades básicas ou apenas evitar a morte pela fome? A produção agropecuária mundial pode garantir alimentação para 12 bilhões de seres humanos. Como somos pouco mais de 7 bilhões, há evidente desperdício e impedimento de que muitos tenham acesso aos alimentos. Vivemos em um país que teima em fazer reforma agrária ao inverso: aumenta a quantidade de terra sob controle de uma minoria e diminui a destinada aos pequenos proprietários, que são produtores de mais de 70% dos alimentos da nossa população.

A campanha mundial contra a fome e a pobreza, no Brasil, vai promover processo de escuta e diálogo com os grupos, comunidades e paróquias, com o intuito de identificar como os próprios empobrecidos enxergam a questão da pobreza e da miséria no país.

Não vamos retratar a fome, a pobreza e a miséria apenas como números que colocam o ser humano em uma condição de estatística. Vamos retratar a verdadeira face dessa realidade e quem nos contará essa história serão os próprios rostos da pobreza, da fome e da miséria no Brasil. A expectativa é que, em setembro de 2014, um documento sistematizado com o resultado de todos esses diálogos seja lançado para a sociedade brasileira.
 
Alimentados e animados pela frase do nosso grande mestre fundador, dom Helder Câmara, que nos ilumina dizendo que "o verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos", vamos alicerçados na esperança e na confiança do Santo Padre, o papa Francisco, seguindo a nossa missão.

 

 

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