
Já a Conferência de Medellín, em 1968, havia dito que se a Igreja do continente sentia a necessidade imperiosa de realizar mudança de alianças, unindo inseparavelmente evangelização e prática da justiça, e privilegiando os pobres como parceiros primordiais isso implicaria necessariamente em uma nova teologia. E essa teologia deveria partir do chão da realidade atravessada pela injustiça e pela opressão, a fim de elaborar conteúdos que pudessem contribuir para uma transformação da mesma realidade. Sobre aquele acontecimento disse agora Gustavo Gutierrez: “O problema que enfrentávamos não é sobre como falar de Deus em um mundo adulto, mas como anunciar Deus como um pai amoroso e justo em um mundo desumano e injusto”. Na verdade, não se trata de algo novo. Chamar a atenção para a fato de aqueles que são desprovidos das benesses da sociedade e excluídos pelo progresso e pelas elites serem os filhos mais queridos de Deus justamente porque mais necessitados não foi inventado pela Teologia da Libertação. Remonta, na verdade, a Jesus de Nazaré que, fiel ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó, por ele chamado amorosamente de Pai, voltava-se com especial atenção e desvelo para as categorias de pessoas mais desprezadas da sociedade: o órfã o, a viúva, o pobre, o estrangeiro. A TdL procura fazer o mesmo. Experimentar um encontro profundo com o Senhor no rosto do pobre. Por-se à escuta dos que não têm voz para ouvir e responder a seus desejos mais profundos e autênticos. Colocar-se a serviço de sua libertação, denunciando quem afirma que a pobreza e exclusão são vontade de Deus e não fruto podre do pecado humano, pessoal e estrutural. A TdL ganhou corpo e força nos anos 1970 e 1980. Apesar de muito combatida mesmo por segmentos importantes da Igreja, não abriu mão de seus princípios norteadores e permaneceu firme na fidelidade a seus propósitos. Ganhou credibilidade e confiança, e quando indagavam se pretendia formar uma Igreja paralela, sempre reafirmou sua convicção de ser uma teologia eclesial, elaborada dentro da Igreja e não apenas na academia ou nas tribunas sociais de todos os tipos. Apesar de inspirar e reforçar compromissos políticos, seu referencial era a Igreja e nenhuma outra instância. Dentro dessa Igreja produziu, deu abundantes frutos, revitalizou todo o pensar teológico, dando-lhe nova perspectiva. Talvez por isso mesmo tenha sido tão doloroso para esta teologia e seus representantes haverem sido pouco compreendidos por certos setores eclesiais e até mesmo marginalizados por boa parte deles. Homens como Gustavo Gutierrez e outros de igual quilate foram olhados com suspeita e desconfiança, sendo seu trabalho mal entendido e mal avaliado. É belo ver agora a reinclusão desta teologia dentro do conjunto do pensamento da Igreja que sempre amou e a quem sempre quis fielmente servir. O encontro do Papa com Gustavo Gutierrez é um sinal poderoso de que novos tempos começam não só para essa teologia, mas para todo o pensar teológico. Pois se é verdade que a teologia é uma reflexão que só pode ser feita dentro da comunidade eclesial, como fazê-la sem liberdade? Como levá-la adiante em um ambiente de suspeita e desconfiança, sem a liberdade característica do Espírito do Senhor que sopra como o vento e renova a face da terra? A boa notícia do encontro entre o Papa e o teólogo enche os corações de esperança. Para todos nós que entregamos a vida a serviço da teologia entendida como vocação e missão, o ar puro penetra nos pulmões e nos diz que a esperança não decepciona. A teóloga é autora de “Crônicas de cá e de lá” (editora Subiaco), que pode ser encomendado diretamente à escritora pelo e-mail – agape@puc-rio.br – R$ 20,00 |
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