
Durante milênios, a vitimação é considerada normal, inevitável para a boa organização da sociedade. As próprias vítimas (escravos e trabalhadores no império romano, por exemplo) nem tinham consciência de serem vítimas e achavam que sua situação era ‘um dado da natureza’ (assim pensa, por exemplo, Aristóteles). Para remediar um sentimento de mal-estar na sociedade por causa de crimes ou guerras, as civilizações, durante milênios, organizam diversas formas de ‘expiação (ritual) dos pecados’, com a finalidade de se purificarem. A ideia é: respirar de novo o ar puro da inocência e colocar tudo nos eixos, sacrificando uma vítima.
Eis o sentido da ‘festa da expiação’ (Yom Kippur) no judaísmo antigo. No alto do templo, o sumo sacerdote empurra um bode penhasco abaixo, proclamando em seguida que Israel está de novo puro e imaculado diante de Ihwh. Os antigos astecas, no México, praticavam com regularidade sacrifícios humanos sangrentos no alto de suas pirâmides com a mesma finalidade.
O sumo sacerdote Caifás, no sinédrio, dá o voto de Minerva a favor da condenação de Jesus, dizendo: ‘um tem de morrer pelo povo’. Algo similar está acontecendo hoje entre nós. Há quem pense que o Brasil vai ficar melhor, mais puro, menos corrupto, após a condenação de José Dirceu ou José Genoíno. Há um sentimento de redenção e muitos vislumbram finalmente uma luz no fim do túnel da impunidade. Marcharemos resolutos para a constituição de um país finalmente honesto, sob a batuta de Joaquim Barbosa.
Os cristãos que pensam assim esquecem que Jesus interrompe categoricamente esse modo de pensar e, com isso, inaugura um novo tempo para a humanidade. Ele não morre na qualidade de vítima inocente. Morre em consequência de uma postura assumida contra os abusos cometidos pelas autoridades de seu país, tanto judaicas como romanas. Jesus sente compaixão pelo povo comum, que não tem consciência da exploração impiedosa que sofre por meio de leis consideradas santas (o código levítico, a torá), mas que na realidade beneficiam os ‘puros’ (sacerdotes) e condenam os ‘impuros’.
Em contrapartida à lei, ele divulga nas aldeias da Galileia, com muita autoridade, um programa totalmente novo: é preciso abrir a casa ao visitante incômodo no meio da noite; perdoar as dívidas e erros do vizinho (não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes); não cobiçar a mulher do vizinho nem seu animal de carga; não ter inveja de ninguém (pois a inveja destrói os laços de fraternidade); não delatar o vizinho; frequentar as reuniões da comunidade onde se ensina a lei de Moisés sem as deturpações divulgadas pelos sacerdotes de Jerusalém; ver em qualquer pessoa um irmão, uma irmã. Esse programa, fácil de ser enunciado, é difícil de ser executado, pois está em oposição diametral com comportamentos desde muito enraizados nas pessoas.
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O programa de Jesus mostra que uma sociedade pode sobreviver sem postular sacrifícios nem produzir vítimas. Há uma diferença, nos evangelhos entre culpados (pecadores, como os publicanos, por exemplo) e vítimas da execração. José Dirceu e José Genoíno, sem dúvida, são culpados e devem ser punidos por causa dos erros que cometeram, mas isso não significa que devam ser entregues à sanha violenta da vingatividade e da crueldade humana, seus nomes não devem ser |
arrastados como se eles fossem ‘demoníacos’. Eis um ponto em que nossa sociedade se mostra profundamente pagã e ainda não captou a real novidade do evangelho.
Os cristãos se comprometem a seguir o programa que Jesus divulgou nas aldeias da Galileia, uma experiência real e histórica, que até hoje orienta o cristianismo. A genialidade de Jesus não só consiste na lucidez em detectar o mecanismo sacrifical, mas também na coragem de desativá-lo nas aldeias da Galileia. Essa experiência-modelo implica em nunca jogar a culpa no outro, e é isso que abre uma nova perspectiva para a humanidade e inaugura um tempo de fraternidade universal e amor incondicional ao próximo. Seria ingenuidade pensar que a mensagem de Jesus tenha sido imediatamente compreendida por todos, pois na mente das pessoas os antigos modos de pensar e reagir, assim como o costume de sempre jogar a culpa nos outros e gostar de ver sua derrota, de pisar em cima de ‘culpados’ ou de ter inveja,
têm caráter ancestral, são sedimentações mentais transmitidas de geração em geração por pessoas que, embora se digam cristãos, não entendem o cristianismo.
Seria ingenuidade pensar que o Brasil, por ser o maior país católico do mundo, tenha compreendido o evangelho em seu âmago. Os dias que atravessamos mostram o contrário (pelo menos nas áreas que se comunicam por TV ou internet). As reações diante dos ‘mensaleiros’ comprovam que mesmo alguns que se declaram cristãos da esquerda podem cair na armadilha do mecanismo ‘bode expiatório’, ainda persistente nas mentes. A penetração da mensagem evangélica é um processo lento e difícil, pois exige capacidade de se converter (repensar), rever atitudes tomadas, praticar autoanálise e reconhecer que ‘pecadores’ somos nós, na medida em que somos omissos.
Estamos aqui diante do cerne do evangelho, pois a vocação cristã consiste em assumir o ‘modo de pensar’ de Jesus de Nazaré. É verdade, Jesus sabia que muitas pessoas não entendiam seus propósitos. Ele sempre foi paciente nesse ponto, pois tinha consciência de que se tratava de algo muito enraizado nas mentalidades.
Não podemos esquecer o outro lado da questão. Apesar de tudo, de dois mil anos para cá, um fio dourado de perdão, amor universal e fraternidade percorre a história da humanidade. Há inúmeros exemplos. Todos e todas conhecemos iniciativas que rechaçam a ideia de vingança, sacrifício ‘em benefício do bom andamento da sociedade’ e julgamento de ‘culpados’. Tudo isso substituído por uma abertura irrestrita ao ‘outro’. Também nesse sentido, ‘um outro mundo é possível’.
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