
Réu diz que suas armas não eram usadas e tinham até casa de aranha.
Promotoria não realizou perguntas ao policial reformado.
O advogado e policial reformado Mizael Bispo de Souza afirmou nesta quarta-feira (13) que não matou Mércia Nakashima. "Eu não matei ninguém", disse. "Não devo nada, não temerei", completou. Ele falou por quase duas horas no terceiro dia de seu julgamento, iniciado na segunda-feira (11).
Mizael responde por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima). De acordo com a denúncia, Mizael matou a ex-namorada, então com 28 anos, porque ela não queria reatar o relacionamento. O crime aconteceu em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo, onde o corpo de Mércia foi encontrado em uma represa. Seu julgamento será retomado às 9h desta quinta-feira (14) com os debates e a decisão dos jurados.
Mizael começou a depor às 17h18. A acusação afirmou que não faria perguntas ao réu em razão de ele já ter apresentado diferentes versões sobre o caso e que as provas são claras. Ele falou então à defesa e respondeu perguntas dos jurados. A mãe de Mércia, Janete Nakashima, chegou a balançar a cabeça negativamente em diversas oportunidades.
O réu chegou a mostrar o pé, onde afirma ter tomado um choque em 1999 que lhe custou o trabalho na PM. Ele é policial reformado por invalidez. Mostrou também a mão direita, onde não tem um dos dedos, afirmando que não consegue atirar com essa mão. Mizael é destro.
O policial reformado usou a palavra Deus diversas vezes e afirmou que não tem coragem de tirar a vida de nenhum ser humano. Suas duas armas estavam regularizadas, relatou, e tinham até casa de aranha dentro pela falta de uso.
Sobre o fato de ter ficado foragido, o policial reformado disse que é atitude normal de um inocente. Quem deve tem que pagar. Quem não deve tem que se rebelar, afirma. Estou sofrendo tanto com isso. Três anos. Melhor a morte do que ficar preso, afirmou.
Mizael afirmou que foi vítima de uma armação da polícia, que queria um culpado. Foi o argumento usado para justificar a alga compatível com a da represa de Nazaré Paulista achada em seu sapato. Levaram meu sapato lá para a represa. Eu nunca estive na represa de Nazaré. Juro pela vida da minha filha." Mizael afirmou que foi torturado, assim como seus irmãos, e que policiais chegaram a apontar-lhe uma arma em um posto de gasolina obrigando que ele confessasse que tinha matado Mércia.
O réu disse que tinha um relacionamento normal com Mércia, e que tinha apenas brigas de casal comuns. Disse que foi Mércia que terminou o relacionamento. Confirmou que passou a noite do dia 23 de maio com uma garota que conheceu na rua, e que disse não classificar como prostituta.
Um jurado perguntou por que a família quer culpar Mizael. O réu recordou então que não foi ao casamento da irmã de Mércia, no qual seria padrinho, e que isso causou mágoa na família.
Júri
Segundo o Tribunal de Justiça, o julgamento de Mizael é o primeiro do país transmitido ao vivo. Pelo vídeo foi possível acompanhar não só os depoimentos como as brigas quase que diárias entre acusação e defesa, que já chegaram a chamar a outra parte de mentirosa.
O corpo de jurados é formado por 5 mulheres e 2 homens. O vigia Evandro Bezerra Silva, que também é réu do caso, acusado de ajudar Mizael, só será levado a julgamento no dia 29 de julho.
Peritos
Antes de Mizael depor, dois peritos deram seus depoimentos nesta quarta. O perito da Polícia Técnico-Científica Renato Pattoli, que atuou nas investigações do caso, detalhou a reconstituição do momento em que o carro foi jogado na represa. Para a defesa a reconstituição foi feita de forma a incriminar Mizael.
Entre as supostas falhas descritas está a falta da coleta para análise da calça de Mizael (que pudesse indicar que ela tivesse sido mergulhada na água da represa). Segundo Pattoli, uma camisa e sapatos de Mizael foram encaminhados a um laboratório. "Meu foco principal era [encontrar] matéria orgânica no sapato", declarou. O perito disse ter visto que um dos sapatos "tinha pisado em terreno argiloso".
Depois do depoimento, o advogado de Mizael Ivon Ribeiro afirmou que a alga foi "plantada no sapato de Mizael". O perito rebateu e disse aos jornalistas, após depor, que a alga foi colhida legalmente no calçado. Ele entende que ela incrimina o PM reformado. "O sapato de Mizael estava na represa", disse.
Depois foi a vez do depoimento de Hélio Ramacciotti, perito da Polícia Técnico-Científica. Ele esteve presente como testemunha requisitada pelo juiz e defendeu o laudo que realizou, mostrando o tempo médio que se faz o deslocamento entre as proximidades da represa e o Hospital Geral de Guarulhos, onde Mizael esteve na mesma noite.
Foram simuladas duas situações.
O advogado Ivon Ribeiro pediu a nulidade do laudo dizendo que há erros. Segundo o advogado, os trajetos simulados, um de 9,4 km e outro de 9,2 km, foram feitos com a mesma velocidade média (39 km/h), mas em tempos bem diferentes: 7,3 minutos e 4,10 minutos.
O juiz definiu que os jurados vão decidir se o laudo vale ou não durante os debates. A promotoria afirmou haver má-fé na postura da defesa, e que uma possível nulidade do júri teria ter sido solicitada antes, durante o processo, ou no máximo na segunda-feira, início do julgamento, "não ensejando a instalação dos trabalhos, a incomunicabilidade dos jurados, não gerando o dispêndio de tempo e de dinheiro daqueles envolvidos nesse julgamento", disse o promotor Rodrigo Merli.
Delegado
Na terça-feira (12), segundo dia de julgamento, o depoimento mais contundente foi o do delegado Antonio Assunção de Olim, que contou como suspeitou que o réu havia matado Mércia. Ele foi o responsável por investigar o caso pelo Departamento de Homicídio e de Proteção à Pessoa (DHPP). "Eu não tenho dúvida nenhuma de que o Mizael matou a Mércia", disse Olim no júri.
Durante mais de cinco horas, o delegado falou sobre o percurso feito pelo réu no dia da morte de Mércia, com base no rastreador instalado no veículo. Segundo Olim, Mizael desconhecia o fato de seu veículo possuir um rastreador que foi instalado pela seguradora a pedido de Mércia. O delegado falou também sobre ligações telefônicas feitas por Mizael e que, segundo o registro das antenas de telefonia, mostram que o réu esteve emNazaré Paulistax. O fato foi corroborado pelo depoimento do investigador Alexandre Simoni Silva, que contou que a polícia descobriu uma linha Mizael usou, mas que não estava em seu nome, para se comunicar com Evandro no dia dos fatos.
A corretora Rita Maria de Souza, que trabalha em uma imobiliária embaixo do escritório de advocacia de Mizael, foi a primeira testemunha de defesa a falar na terça. Ela disse que Mizael e Mércia tinham um bom relacionamento e que Mizael ajudou bastante Mércia, inclusive cedendo clientes.
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