Por: Redação/Atlanticanews
22/08/2023 - 10:32:56

No momento da invasão à sua residência, no Quilombo Pitanga dos Palmares, na Região Metropolitana de Salvador, a líder quilombola Mãe Bernadete pensou que se tratava de um assalto. À polícia, o neto da vítima Wellington Gabriel de Jesus dos Santos, de 22 anos, que estava na casa da avó na noite do crime, disse que, ao ouvir batidas na porta, outro neto dela, adolescente, a abriu e os dois executores do crime entraram na residência.

No momento, Mãe Bernadete perguntou: "É assalto?". Os homens, que estavam armados e usando capacetes de motociclista, a renderam, pegaram o celular da quilombola e a mandaram desbloquear o aparelho.

A vítima estava na companhia de três netos quando foi morta: Wellington, que estava em um dos quartos da casa, e dois adolescentes, de 13 e 12 anos, que estavam na sala com a avó. Os criminosos também roubaram os celulares dos dois adolescentes e exigiram que eles fossem para um dos quartos da casa.

Depois disso, um dos homens foi até o quarto onde Wellington estava e o mandou deitar no chão. "Deite no chão, seu 'viado'", exigiu. Ao sair do cômodo, o criminoso fechou a porta. Depois disso, o neto ouviu diversos disparos, e encontrou a avó morta no chão da sala ao sair do quarto.

De acordo com o relato do jovem, sem telefone, ele utilizou o aplicativo de mensagens que estava aberto em seu computador para pedir socorro para pessoas que vivem no quilombo. Depois disso, ele deixou os dois adolescentes com um vizinho e foi até o terreiro de Candomblé, que fica dentro do Quilombo, para ligar para a polícia.

Até esta segunda (21), quatro dias após o homicídio, ninguém foi preso. Os executores chegaram e saíram do quilombo de moto e ainda não foram identificados. No depoimento, Wellington relatou que eles tinham entre 20 e 25 anos, eram negros e usavam roupas pretas, capas de chuva e capacetes.

O caso é investigado por uma força-tarefa da Polícia Civil e também pela Polícia Federal. Nesta segunda, as corporações se reuniram para compartilhar informações. Participaram do encontro o secretário de Segurança Pública da Bahia, Marcelo Werner, o superintendente Regional da Polícia Federal na Bahia, Flávio Albergaria, e a delegada-geral da Polícia Civil, Heloísa Brito. Nenhuma informação sobre o andamento das investigações foi divulgada.

Durante um encontro com a presidente do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber, em julho deste ano, Mãe Bernadete relatou que sofria ameaças. Assim como ela, o filho, Binho, que era pai de Wellington, morreu após ser baleado com diversos tiros dentro do quilombo. Seis anos após o crime, ninguém foi preso.

Segundo o Governo da Bahia, a líder quilombola passou a fazer parte do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH) do Governo Federal, executado na Bahia pela SJDH, após o assassinato do filho, em 2017. Já de acordo com familiares, ela estava sob proteção da Polícia Militar, por meio da SJDH, há pelo menos dois anos.

Linhas de investigação

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, afirmou nesta segunda-feira que a Polícia Civil trabalha com três teses para o assassinato de Mãe Bernadete: briga por território, intolerância religiosa e disputa de facções criminosas. A mais destacada pela Polícia Civil da Bahia é a terceira tese, mas o governador não explicou a relação do assassinato de Bernadete com o tráfico de drogas, já que a ialorixá não tinha envolvimento com a criminalidade. Os relatos dela eram frequentes sobre ameaças que recebia de grileiros e madeireiros, que queriam extrair matéria-prima ilegalmente na região do Quilombo Pitanga de Palmares, uma Área de Proteção Ambiental (APA).

Foto: Conaq

COMENTÁRIOS

Nome:

Texto:

Máximo de caracteres permitidos 500/