Por: Teoney Guerra / Pesquisador da história de Eunápol
01/11/2012 - 00:00:00

A fixação das primeiras famílias nas áreas onde hoje são os bairros Doutor Gusmão e Pequi, ocorreu através de ocupações irregulares, as invasões, que já ocorriam ainda na década de 50, nos primórdios do então povoado.

A invasão que resultou na criação do bairro Doutor Gusmão é a mais conhecida, e contada em várias versões.

Neste texto, transcrevemos o relato de Antônio Contelli, na época, delegado de Polícia de Eunápolis e testemunha ocular do que ocorreu naquele dia, cuja data não é mais lembrada, mas que entrou para a história de Eunápolis.

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Eram meados de 1964, transcorria a administração de Armando Ribeiro Carneiro à frente da prefeitura de Porto Seguro. Antônio Contelli era o delegado de Polícia* do povoado - ocupou o cargo entre 1963 e 65 -, o denominado "delegado calça curta", um civil que exercia a função. Naquele dia, um tenente da Polícia Militar que chegara à localidade, o procurara na Delegacia, que ficava localizada na rua Demétrio Couto Guerrieri, mais conhecida como Rua da Colônia, tendo solicitado o efetivo, cerca de sete policiais, sob a alegação de que havia recebido ordens da Secretaria de Segurança Pública (SSP), para desocupar uma área de propriedade de Ivan Moura e Edmundo Borges, que havia sido invadida por cerca de 300 moradores do povoado.

O delegado havia cedido os policiais, que teriam acompanhado o oficial, seguindo-o para o local da invasão.

Algum tempo depois, ainda pela manhã, o prefeito, o Administrador do povoado, Paulino Mendes Lima e o chefe da Bahia Construtora, Dermeval Gusmão foram à Delegacia, onde indagaram a Contelli sobre a retirada das famílias, que estava prestes a acontecer. O delegado, então, esclarecera que o oficial requisitara os soldados, e que ele, cumprindo a determinação superior, os autorizara a acompanha-lo na missão para a qual fora determinada.

O prefeito, então, sugeriu que os quatro fossem conversar com o oficial, tendo-o encontrado no local da desocupação, onde conversaram. "Ele [ o tenente] queria, a todo custo, derrubar os barracos, mas o prefeito ponderou, conversou, até convencê-lo", salientou Contelli. "Então, como a posição dos senhores é para não se derrubar os barracos, então, tenham um entendimento lá com o governador", teria dito o oficial, em resposta aos argumentos do prefeito. Depois de muita conversa, ficou combinado que os barracos não seriam derrubados, e no dia seguinte, o prefeito enviaria um representante seu a Salvador, para falar com o governador, visando encontrar uma solução para o problema.

Segundo Contelli, já era entre uma e meia e duas horas da tarde, e os quatro foram almoçar num restaurante, localizado na avenida Porto Seguro, cujo nome ele não se lembra mais . "Quando estamos almoçando, chega um rapaz, dizendo que o temente estava destruindo os barracos. Paramos de almoçar, pegamos um carro e fomos para lá", diz o ex-delegado, que continuou: "Chegamos, descemos do carro, e lá estava ele, derrubando as barracas", afirmou seu Contelli. Aproximaram-se do tenente, e quando o alcançaram, viram uma multidão andando na direção deles. Funcionários da Bahia Construtora, do DNER e muitas outras pessoas; mais de 300 homens e mulheres, com foices, enxadas, pedaços de paus... "aí o pessoal do Destacamento sentiu a barra pesada", disse Contelli. O tenente, então, parou de derrubar os barracos, e o Dr. Gusmão, "muito afoito", começou a falar, com o tenente, acusando-o de não haver cumprido com a palavra. O tenente não argumentara. Então de comum acordo, teriam decidido ir para a Delegacia para discutir e resolver o impasse. Autoridades e os invasores foram para a Delegacia. Lá chegando, o tenente decidira não continuar o despejo, e afirmara que iria para Ilhéus, comunicar o ocorrido ao comandante do Pelotão daquela cidade, saindo em seguida. O povo voltou para o local da invasão.

"No dia seguinte, o prefeito informou ter designado uma pessoa para ir a Salvador falar com o governador. Não se sabe quem foi o emissário, quando voltou nem o que conversou", afirmou Contelli. A partir daí, a invasão continuou; os moradores aclamaram o Doutor Gusmão uma espécie de herói, e o local se tornou o bairro que foi designado de "Doutor Gusmão", em homenagem ao chefe da construtora que defendera aquela gente que não tinha onde morar.

*Naquela época, as pequenas localidades eram guarnecidas por policiais militares, que ficavam sediados na Delegacia de Polícia, sob o comando do Delegado, que era um Civil.


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